| Dom Casmurro
Machado de Assis
Resumo
Dom Casmurro conta a história de Bento Santiago, filho de uma família
abastada do Brasil do século XIX. A história é contada por Bento adulto,
quando já recebera o apelido de "dom casmurro", por viver de
modo recluso, quase sem amigos. Bento conta a história a partir da sua
infância, estabelecendo uma retrospectiva para entender acontecimentos
importantes de sua vida. O pai do protagonista, Pedro de Albuquerque Santiago,
casado com Maria da Glória Fernandes Santiago, possuía uma fazenda em
Itaguaí, Rio de Janeiro, local onde nasceu Bentinho. Como o primeiro filho
do casal tinha nascido morto, a mãe, ao ficar grávida pela segunda vez,
fizera a promessa de fazer do filho um padre, se viesse a ter um menino
saudável. Foi também em Itaguaí que o agregado José Dias foi viver com
a família. Ele tinha aparecido por ali dizendo-se médico homeopata, curou
algumas pessoas e o pai de Bento o convidou para que morasse na fazenda,
embora José Dias já houvesse confessado que não era médico. Desde esta
época, o agregado passou a fazer parte da família Albuquerque Santiago.
Quando Bentinho tinha dois anos, o pai elegeu-se deputado, o que levou
a família à Corte. Estabeleceram-se, então, na Rua de Matacavalos, numa
casa assobradada, construção própria das famílias que vinham das grandes
casas senhoriais do campo. Passados dois anos, o pai de Bentinho faleceu
e a mãe decidiu que o melhor seria ficar definitivamente na Corte, motivo
que a levou a vender a propriedade de Itaguaí, comprando com o dinheiro
apólices, escravos e algumas casas. Além disso, convidou seu irmão e uma
prima para viverem com ela. O grande sonho de D. Glória era cumprir sua
promessa e fazer de Bentinho um padre e, para isso, contratou o Padre
Cabral para cuidar da educação do menino em sua própria casa. Dessa forma,
Bentinho não freqüentava a escola e foi criado sem o contato com outras
crianças, sem sair à rua, tendo como única companhia os adultos de Matacavalos
e Capitu. Um ano mais nova que ele, a menina morava na casa ao lado, juntamente
com seu pai, João Pádua, e a mãe, Dona Fortunata. A família Pádua tinha
uma condição social bastante diferente da família de Bento, já que João
Pádua era um modesto funcionário público. O fato de serem vizinhos se
devia a um lance de sorte de Pádua, que ganhara na loteria. Bentinho e
Capitu se tornaram muito amigos, e havia inclusive um portão no fundo
das casas que ligava os dois quintais vizinhos. José Dias dizia à Dona
Glória que era preciso mandar logo Bentinho ao seminário, pois lhe parecia
que estava surgindo uma dificuldade para a realização da antiga promessa.
Ele observa que Bentinho e Capitu estavam sempre juntos, de segredinhos,
o que o fazia supor que pudesse haver mais que uma simples amizade entre
os dois. A denúncia de José Dias confirma para Bentinho um sentimento
que antes não conseguia definir: o menino descobre que ama Capitu. Essa
descoberta transforma o personagem. Quando sai de trás da porta, onde
havia ficado escondido para ouvir as palavras de José Dias, dirige-se
para os fundos do quintal. Ali estava Capitu, que tinha acabado de fazer
uma inscrição no muro com o nome dos dois; a partir de então começou,
efetivamente, o namoro dos jovens. O grande problema é então driblar a
promessa da mãe: tornando-se padre, seria impossível realizar o amor que
tinha nascido entre os dois vizinhos. Bentinho tem idéias mirabolantes
sobre como safar-se da batina, enquanto Capitu é sempre mais sensata.
Segundo ela, primeiramente, o jovem herdeiro da família Santiago devia
fazer ver a José Dias, que tinha certa influência sobre Dona Glória, que
o rapaz não tinha vocação para padre, resultando melhor que estudasse
Direito em São Paulo. Capitu deixou claro a Bentinho que ele lembrasse
ao agregado quem seria o futuro senhor da família, demonstrando muita
perspicácia para solucionar o impasse que se criou. Realmente, o agregado
logo se colocou de acordo com a ponderação de Bentinho, achando que, se
o rapaz fosse mesmo estudar leis, iria fazê-lo na Europa, o que o levou
a vislumbrar a possibilidade de acompanhá-lo na suposta viagem. É também
em meio a esta conversa que ele diz que a família do Pádua era gente de
menor condição; os olhos da filha, por exemplo, eram obra do diabo, pois
a menina possuía "uns olhos de cigana oblíqua e dissimulada",
imagem que ficou gravada na cabeça de Bento, que quis confirmá-la alguns
dias mais tarde. Entretanto, a expressão a que chegou, não menos enigmática,
foi a de "olhos de ressaca". Apesar das tentativas de Bento,
a vontade de D. Glória venceu e o menino acabou indo - com grande sofrimento
- para o seminário. Neste ínterim, Capitu aproveita a oportunidade para
aproximar-se de Dona Glória, sensível a demonstrações de carinho e companheirismo.
A matriarca da família Santiago vê na jovem vizinha uma agradável companhia,
passando a tratá-la como filha. Capitu conseguiu adentrar na intimidade
da família, que agora tinha Bentinho somente nos finais de semana, rotina
apenas quebrada num dia em que Dona Glória ficou doente, quando então
o filho foi chamado às pressas do seminário. Nesse dia, Bento não retornou
imediatamente depois de ver a mãe. Foi à missa e, na volta, teve a visita
do amigo Ezequiel Escobar, jovem curitibano dado a números e ao comércio,
mas que também estava no seminário, local onde os dois tinham se conhecido
e se tornado bons amigos. Eram muito diferentes entre si, porém possuíam
em comum o fato de não apresentarem qualquer vocação religiosa. Na visita
aos Santiago, o amigo mostrou-se encantado com a matriarca, tanto pela
beleza quanto pelo dinheiro que possuía, ao mesmo tempo em que todos na
casa gostaram muito do rapaz. Esta amizade foi fundamental para Bento.
Foi de Escobar a idéia que tirou Bentinho do seminário, quando todos já
ansiavam por isso, inclusive Dona Glória. Ninguém sabia, no entanto, como
realizar tal feito sem quebrar a promessa, o que seria terrível diante
da posição da família frente à sociedade. Com seu raciocínio pragmático,
o amigo de Bento fez ver a todos que o importante era dar à igreja um
pastor a mais para seu rebanho, que não precisaria ser, necessariamente,
Bentinho, que não demonstrara nenhuma vocação para o celibato. O ideal,
segundo o jovem, seria que Dona Glória financiasse a ordenação de um jovem
pobre - todos ganhavam, inclusive a igreja, que não perderia um futuro
padre. Assim, liquidada indiretamente a promessa, Bentinho saiu do seminário,
estudou Direito, não na Europa, como queria José Dias, mas sim em São
Paulo, como pensava Capitu. Depois de diplomado, a menina dos olhos de
ressaca e o ex-seminarista finalmente se casaram. Escobar, por sua vez,
também não continuou no seminário, tendo se estabelecido no comércio e
se casado com Sancha, amiga de Capitu. Os dois casais ficaram, portanto,
muito amigos após os respectivos matrimônios. Arma-se, aqui, uma nova
etapa na vida do protagonista. Inicialmente, a vida de Bentinho e Capitu
transcorre sem nenhum problema grave. A única "imperfeição"
é a falta de um filho, acentuada ainda mais pelo nascimento da filha do
casal Sancha e Escobar, que recebe o mesmo nome de Capitu: Capitolina.
Passado algum tempo desse nascimento, Capitu fica grávida, dando à luz
um garoto, para completar a felicidade do casal. Batizaram-no como Ezequiel,
em homenagem a Escobar. O padrinho do menino foi Tio Cosme e a madrinha,
Dona Glória, já que o tio pediu a honra de batizá-lo, enquanto Bentinho
pensava no amigo Escobar como padrinho. Ezequiel ia crescendo normalmente,
saudável e alegre, enquanto os pais eram só desvelos para com o filho.
O garoto possuía uma incrível capacidade de imitação, fato observado por
Bentinho, que disse à Capitu que além de imitar Prima Justina e José Dias
- este com perfeição - o filho lembrava Escobar em alguns gestos, o que
desagradou à mãe, que pensou ser importante corrigi-lo. Por esta mesma
época, Bentinho sentia que sua mãe estava diferente em relação a eles
e até ao neto, sem que pudesse entender o motivo. Capitu dizia que eram
ciúmes, mas o marido não concordava com a hipótese. Apenas pouco tempo
depois, em uma visita de José Dias, Bentinho perguntou ao agregado o motivo
da transformação de Dona Glória, porém este fica surpreso, afirmando que
não havia nenhum problema. O casal continuava vivendo harmoniosamente.
Uma noite, Escobar e Sancha foram jantar na casa dos amigos. O primeiro
tinha um plano, que contaria posteriormente a Bentinho. Sancha, por sua
vez, chegou perto deste e lhe disse que o marido planejava uma viagem
à Europa, que seria realizada dentro de dois anos. Iriam os quatro. Bento
vê, no olhar e nas atitudes da mulher do amigo, algo diferente, supondo
que Sancha o desejara sexualmente, além de imaginar que ela teria ficado
com a mão mais tempo na sua, no momento da despedida. Por sua cabeça acaba
passando a idéia de desejo, aliada ao remorso de senti-lo pela mulher
do amigo. É justamente no dia seguinte que morre Escobar, quando nadava
no mar, que estava numa forte ressaca. No velório, em meio à confusão
geral, à dor e ao sofrimento, Bentinho olha para Capitu, que observa o
cadáver com um olhar que o marido só pode classificar como o fizera no
começo da narrativa: olhos de ressaca. Transtornado por esta visão, mal
consegue ler o discurso que havia escrito em homenagem a Escobar. Afinal,
o olhar de Capitu só podia significar, segundo seu entendimento, que ela
amara o amigo. Pior ainda, o filho Ezequiel, com certeza, não imitava
o morto, era seu próprio filho. Totalmente tomado pela convicção do adultério,
Bento decide se matar. Chega, inclusive, a comprar veneno em uma farmácia.
Entretanto, muda de idéia, pensando que o que deve fazer é matar Capitu,
ocorrendo-lhe depois a idéia de matar Ezequiel, sem ter, contudo, realizado
nenhuma das intenções. O que acaba fazendo, efetivamente, é separar-se
da mulher, que vai para a Suíça, onde morrerá tempos depois, levando consigo
o filho que Bentinho jura ser de seu amigo Escobar. Passado esse acontecimento,
toda a narrativa posterior se dá de maneira sucinta. Tio Cosme já havia
falecido. Dona Glória morre antes de José Dias, que falece após pronunciar
seu último superlativo. Ezequiel, depois de tornar-se arqueólogo, voltou
ao Rio de Janeiro, quando tinha vinte e cinco anos de idade, para rever
o pai. Segundo o ponto de vista do narrador, o rapaz era o retrato vivo
do amigo morto. Morre também Prima Justina, quando então Ezequiel, financiado
pelo pai, viaja para o Oriente, onde também morrerá, vindo a ser enterrado
perto de Jerusalém. Bentinho, por sua vez, sobrevivente único dentre todos
os personagens apresentados, vai viver no Engenho Novo, numa casa que
mandou construir à semelhança do sobrado de Matacavalos. Acostumou-se
à solidão, sendo que seus relacionamentos amorosos se limitaram a uns
poucos casos com algumas prostitutas. Transformou-se, com o passar do
tempo, no "casmurro" que dá título à narrativa.
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