Fogo morto

José Lins do Rego

Resumo

Mestre José Amaro

José Amaro vivia de consertar sela, arreios, mexer com o couro, com a sola. Passava o dia trabalhando em sua tenda na frente da casa. Muitos eram os que passavam pela estrada e cumprimentavam-no, paravam para um conversa rápida, ou então para pedir algum conserto, entre eles Seu Laurentino, o pintor, Torquato, o cego, Alípio, o aguardenteiro, que mais tarde entrou para o bando do Capitão Antônio Silvino, Vitorino, seu compadre, e o negro José Passarinho. Alguns ele atendia com certa satisfação, fazia até consertos de graça, mas recusava-se a atender o pessoal do Santa Rosa, engenho do Coronel José Paulino, com quem tinha suas diferenças. Dizia que o coronel gritava com todos e que ele não era homem de levar grito. Sentia orgulho nessa sua atitude. Fora sempre um homem de trato duro, áspero, mas ultimamente tinha piorado muito, estava sempre bravo com todos, sempre com críticas, qualquer coisa que alguém dizia ele retrucava. Também dera para ter raiva de sua família. Sinhá tinha se casado com José Amaro para não ficar moça velha, como ia ficando sua filha, solteira e já com trinta anos. Toda a vida Sinhá passou sem exercer sua vontade, obedecendo em tudo ao marido. A única coisa que lhe dava motivo de viver era sua filha Marta. Defendia-a dos ataques do marido que a cada dia que passava ia ficando mais ríspido, mais duro no tratamento com elas. As atitudes destemperadas do seleiro foram também, pouco a pouco, criando um sentimento de medo em Sinhá, percebia que o marido estava ficando diferente, ensimesmado, mais agressivo, distante. E ainda havia a história de ele ser lobisomem Sinhá cuidava da casa, da criação, mas não tinha dado ao seleiro um filho. Ao invés disso, deu-lhe uma filha, Marta, que por qualquer coisa chorava. Nunca tinha se casado, apesar de ser moça estudada: sabia ler, tinha letra bonita, bordava e costurava. Não era moça feia, outras menos bonitas tinham conseguido marido. Agora com trinta anos dera para chorar baixinho o dia todo, tinha uma aflição que a comia por dentro. Um dia Marta teve uma crise, foi encontrada deitada no chão da sala, grunhindo. Por algum tempo depois da crise parecia que estava melhor, mais animada, até que um dia saiu da casa gritando e rindo sem parar. José Amaro pegou um pedaço de sola na mão e deu uma surra em Marta. A partir de então, Marta começou a falar coisas sem sentido e a dar risadas medonhas. Tinha endoidado de vez. A angústia com a vida que José Amaro levava foi aumentando e num ímpeto de tentar aliviá-la, o mestre começou a dar uns passeios pela redondeza à noite. Isto e mais sua aparência descuidada, sua pele amarelada pelo trabalho com o couro motivaram o falatório do povo e alimentaram a crença em que José Amaro tinha se transformado em lobisomem. O sofrimento de José Amaro só era amenizado pelas histórias do bando do Capitão Antônio Silvino, que enfrentava as tropas do Tenente Maurício e os coronéis de engenho a favor dos pobres. Alípio é quem trazia as notícias da movimentação do bando, e começou a pedir a ajuda do mestre para arranjar provisões para o bando e para saber onde andava o tenente. Isso deu ao mestre um sentimento de utilidade, de orgulho, agora ele tinha um novo motivo para viver. Mestre Amaro vivia no engenho Santa Fé desde os tempo em que o Capitão Tomás era o proprietário. Depois da morte do Capitão Tomás, seu genro, Coronel Luís César de Holanda Chacom é quem passou a tomar conta do Santa Fé. Coronel Lula de Holanda passava sempre pela porta de mestre José Amaro com seu cabriolé. José Amaro gostava de ver o cabriolé enchendo a estrada, com seus cavalos, suas lamparinas, suas campainhas. Só não gostava da soberba do coronel. Não era homem de andar a pé pelo engenho, não gostava de tomar conta da propriedade, que a cada dia estava mais abandonada. Não era como no tempo do Capitão Tomás. Entre sua criadagem tinha o negro Floripes, que o Coronel Lula apadrinhou. Fazia questão que o negro acompanhasse as rezas da família todo final de tarde. Aproveitando-se da doença do Coronel e da estima que este lhe tinha, Floripes inventou uma intriga a respeito de José Amaro. Isto porque o seleiro não gostou de um recado que o coronel havia mandado pelo negro e enxotou-o de sua casa. O Coronel mandou chamar o mestre e pediu para ele sair de suas terras. No dia seguinte, Sinhá, ajudada pelo compadre Vitorino, levou Marta para um hospital no Recife. O mestre sentiu um enorme vazio, medo de voltar para casa, e, debaixo de uma pitombeira, abaixou a cabeça e chorou. O engenho do Seu Lula"O Capitão Tomás Cabral de Melo chegara do Ingá do Bacamarte para a Várzea do Paraíba, antes da revolução de 1848, trazendo muito gado, escravos, família e aderentes." Comprou umas terras perto do Santa Rosa e se instalara ali. Era homem trabalhador, ele mesmo, junto com seus homens, foi levantando o Santa Fé. No começo, não sabia nada de açúcar, criava gado, plantava algodão. Mas era homem obstinado, levantou o engenho, comprou o que foi necessário para dar início à produção e dois anos depois colhia sua primeira safra. O povo, que não tinha botado fé naquele camumbembe, via com espanto o engenho crescer, tomar corpo. Depois de algum tempo, o Santa Fé produzia mais que outros engenhos de mais recursos. Diziam que os negros do Santa Fé eram maltratados, que recebiam castigos tremendos. "Negro no Santa Fé era de verdade besta de carga." Sua escravatura não participava das festas do Pilar, "não vivia no coco como a do Santa Rosa." O capitão achava que negro tinha nascido para o trabalho e, mesmo ele, que não era negro, trabalhava de sol a sol. O resultado disso é que o Santa Fé era um engenho triste. Quando a filha Amélia voltou dos estudos no Recife, mandou buscar um piano. Este fato foi motivo de festa para o povo, que nunca tinha visto um piano de cauda, maior que todos da região. Mais de dez negros trouxeram o piano na cabeça pela estrada e o capitão vinha atrás dando ordens. Neste mesmo ano o Capitão Tomás mandou pintar a casa-grande e registrou o ano de 1850 no frontão da casa. Nos finais das tardes de domingo, o prazer do capitão era ouvir sua filha tocar valsas. A mulher, cansada dos trabalhos da cozinha, com as mãos grossas de debulhar milho para negro, enchia-se de alegria. D. Amélia tocava suas varsovianas com alma. Aquele era um momento especial no Santa Fé. Pai, mãe e a escravatura experimentavam uma existência muito diferente dos dias normais, embalados pela música. O capitão estava no auge de sua vida, com o engenho produzindo como nunca, tinha voz de comando no Partido Liberal, era respeitado por todos. Mas o fato de sua filha mais velha , tão prendada, educada no Recife, não ter se casado enchia o coração do velho de tristeza. Ali na Ribeira não havia homem para ela. Queria homem educado, de bons modos, que a tratasse bem. Até que apareceu, vindo de Pernambuco, o primo Luís César de Holanda Chacom. Homem de boa aparência, educado. O Capitão Tomás gostou logo do rapaz e foi-lhe chamando de Lula. D. Amélia também se engraçou dele, e as varsovianas passaram a ter mais sentimento. Entretanto, tempos depois o rapaz foi em viagem para o Recife, sem fazer o pedido tão esperado, e o silêncio reinou naquela casa. Ao mesmo tempo, chegaram notícias do Recife sobre Olívia, a filha mais nova do Capitão Tomás, dizendo que ela se encontrava com uma doença de difícil cura. Foi com muita tristeza que o capitão foi visitá-la. Não pôde trazê-la para casa como queria. Voltou para o Santa Fé completamente abalado, era outro homem. Passados meses, todos na casa já tinham se conformado com a doença de Olívia, menos ele. Ia de dois em dois meses visitar a filha e quando voltava não falava com ninguém. Sofria calado, abandonou o Partido Liberal, não tinha mais gosto pelo trabalho, ficava horas deitado no marquesão da sala. Nem sua filha Amélia conseguia tirar o pai daquele estado. Até que um moleque escravo fugiu. O Capitão levantou-se atrás do negro fujão, voltou com ele e mandou dar-lhe um corretivo. Um outro fato que o ajudou a sair daquele estado foi a chegada de uma carta do Recife, com o pedido de casamento do primo Lula. O Capitão Tomás quis que sua filha continuasse morando no engenho com o marido. Entretanto, conforme o tempo ia passando, o capitão notou com tristeza que o genro não tinha o menor interesse pelo engenho. Tentou de todas as maneiras motivar o primo Lula, mas este só andava engravatado, vestido para visita. Assustou-se por pensar que um dia tudo aquilo seria do marido de sua filha, e que o rapaz não tinha gosto pelo trabalho. O que o conformava é que Lula tratava bem de sua filha, era carinhoso, tinha boa figura, sua filha parecia feliz.
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