O Cortiço
Aluísio de Azevedo - Data 1890
Resumo
João Romão, português, bronco e ambicioso, juntando dinheiro
a poder de penosos sacrifícios, compra pequeno estabelecimento
comercial no subúrbio da cidade (Rio de Janeiro). Ao lado morava
uma preta, escrava fugida, trabalhadeira, que possuía uma quitanda
e umas economias. Os dois amasiam-se, passando a escrava a trabalhar
como burro de carga para João Romão. Com o dinheiro de Bertoloza
(assim se chamava a ex-escrava), o português compra algumas braças
de terra e alarga sua propriedade. Para agradar a Bertoleza, forja
uma falsa carta de alforria. Com o decorrer do tempo, João Romão
compra mais terras e nelas constrói três casinhas que imediatamente
aluga. O negócio dá certo o novos cubículos se vão amontoando
na propriedade do português. A procura de habitação é enorme,
e João Romão, ganancioso, acaba construindo vasto e movimentado
cortiço. Ao lado vem morar outro português, mas de classe elevada,
com certos ares de pessoa importante, o Senhor Miranda, cuja mulher
leva vida irregular. Miranda não se dá com João Romão, nem vê
com bons olhos o cortiço perto de sua casa. No cortiço moram os
mais variados tipos: brancos, pretos, mulatos, lavadeiras, malandros,
assassinos, vadios, benzedeiras etc. Entre outros: a Machona,
lavadeira gritalhona, "cujos filhos não se pareciam uns com os
outros"; Alexandre, mulato pernóstico; Pombinha, moça franzina
que se desencaminha por influência das más companhias; Rita Baiana,
mulata faceira que andava amigada na ocasião com Firmo, malandro
valentão; Jerônimo e sua mulher, e outros mais. João Romão tem
agora uma pedreira que lhe dá muito dinheiro. No cortiço há festas
com certa freqüência, destacando-se nelas Rita Baiana como dançarina
provocante e sensual, o que faz Jerônimo perder a cabeça. Enciumado,
Firmo acaba brigando com Jerônimo e, hábil na capoeira, abre a
barriga dó rival com a navalha e foge. Naquela mesma rua, outro
cortiço se forma. Os moradores do cortiço de João Romão chamam-no
de "Cabeça-de-gato"; como revide, recebem o apelido de "Carapicus".
Firmo passara a morar no "Cabeça-de-Gato", onde se torna chefe
dos malandros. Jerônimo, que havia sido internado em um hospital
após a briga com Firmo, arma uma emboscada traiçoeira para o malandro
e o mata a pauladas, fugindo em seguida com Rita Baiana, abandonando
a mulher. Querendo vingar a morte de Firmo, os moradores do "Cabeça-de-gato"
travam séria briga com os "Carapicus". Um incêndio, porém, em
vários barracos do cortiço de João Romão põe fim à briga coletiva.
O português, agora endinheirado, reconstrói o cortiço, dando-lhe
nova feição e pretende realizar um objetivo que há tempos vinha
alimentando: casar-se com uma mulher "de fina educação", legitimamente.
Lança os olhos em Zulmira, filha do Miranda. Botelho, um velho
parasita que reside com a família do Miranda e de grande influência
junto deste, aplaina o caminho para João Romão, mediante o pagamento
de vinte contos de réis. E em breve os dois patrícios, por interesse,
se tornam amigos e o casamento é coisa certa. Só há uma dificuldade:
Bertoleza. João Romão arranja um piano para livrar- se dela: manda
um aviso aos antigos proprietários da escrava, denunciando-lhe
o paradeiro. Pouco tempo depois, surge a polícia na casa de João
Romão para levar Bertoleza aos seus antigos senhores. A escrava
compreende o destino que lhe estava reservado, suicida-se, cortando
o ventre com a mesma faca com que estava limpando o peixe para
a refeição de João Romão. Observações finais O romance social
"Desistindo de montar um enredo em função de pessoas, Aluísio
atinou com a fórmula que se ajustava ao seu talento: ateve-se
à seqüência de descrições muito precisas, onde cenas coletivas
e tipos psicologicamente primários fazem, no conjunto, do cortiço
a personagem mais convincente do nosso romance naturalista." (Cf.
Prof. Alfredo Bosi). Todas as existências se entrelaçam e repercutem
umas nas outras. O Cortiço é o núcleo gerador de tudo e foi feito
à imagem de seu proprietário, cresce, se desenvolve e se transforma
com João Romão. A crítica do capitalismo selvagem O tema é a ambição
e a exploração do homem pelo próprio homem. De um lado João Romão
que aspira à riqueza e Miranda, já rico, que aspira à nobreza.
Do outro, a gentalha", caracterizada como um conjunto de animais,
movidos pelo instinto e pela fome. "E naquela terra encharcada
o fumegante, naquela umidade quente e lodosa, começou a minhocar,
a fervilhar, a crescer um mundo, uma coisa viva, uma geração que
parecia brotar espontânea, ali mesmo, daquele lameiro e multiplicar-se
como larvas no esterco. " "As corridas até a vende reproduziam-se
num verminar de formigueiro assanhado." "Daí a pouco, em volta
das bicas era um zunzum crescente; uma aglomeração tumultuosa
de machos e fêmeas. " A redução das criaturas ao nível animal
(zoomorfização) é característica do Naturalismo e revela a influência
das teorias da Biologia do Século XIX (darwinismo, lamarquismo)
e do determinismo (raça, meio, momento) (Oo homem é um produto
do meio). ".. depois de correr meia légua, puxando uma carga superior
às suas forças, caiu morto na rua, ao lado de carroça, estrompado
como uma besta. 'Leandra... a ‘Machona’, portuguesa feroz, berradora,
pulsos cabeludos e grossos, anca de animal do campo "Rita Baiana...
uma cadela no cio". A força do sexo O sexo é, em O Cortiço, força
mais degradante que a ambição e a cobiça. A supervalorização do
sexo, típica do determinismo biológico, e do naturalismo, conduz
Aluísio a buscar quase todas as formas de patologia sexual, desde
o "acanalhamento" das relações matrimoniais, adultério, prostituição,
lesbianismo, etc. Observe esta, descrição de Rita Baiana, e do
fascínio que exercia sobre o português Jerônimo: "Naquela mulata
estava o grande mistério, a síntese das impressões que ele recebeu
chegando aqui. ela era a luz ardente do meio-dia; ela era o calor
vermelho das sestas de fazenda; era o aroma quente dos trevos
e das baunilhas, que o atordoara nas matas brasileiras, era a
palmeira virginal e esquiva que se não torce a nenhuma outra planta;
era o veneno e era o açúcar gostoso, era o sapoti mais doce que
o mel e era a castanha do caju, que abre feridas com o seu azeite
de fogo; e/a era a cobra verde e traiçoeira, a lagarta viscosa,
e muriçoca doida, que esvoaçava havia muito tempo em torno do
corpo dele, assanhando-lhe os desejos, acordando-lhe as fibras,
embambecidas pela saudade de terra, picando-lhe as artérias, para
lhe cuspir dentro da sangue uma centelha daquele amor setentrional,
uma nota daquela música feita de gemidos de prazer, uma larva
daquela nuvem de cantáridas que zumbam em tomo da Rita Baiana
o espalhavam-se pelo ar numa fosforescência afrodisíaca." Os tipos
humanos João Romão "E seu tipo baixote, socado, de cabelos à escovinha,
a barba sempre por fazer, ia o vinha de pedreira para a venda,
de vende As hortas é ao capinzal, sempre em mangas de camisa,
tamancos, sem meras, olhando para todos os lados, com o seu eterno
ar de cobiça, apoderando-se, com os olhos, de tudo aquilo de que
ele não podia apoderar-se logo com as unhas". ".. possuindo-se
de tal delírio de enriquecer, que afrontava resignado as mais
duras privações. Dormia sobre o balcão da própria venda, em cima
de uma esteira, fazendo travesseiro de um saco de estepe cheio
de palha". Albino "Fechava a fila das primeiras lavadeiras, o
Albino, um sujeito afeminado, fraco, cor de aspargo cozido e com
um cabelinho castanho, deslavado e pobre, que lhe caía, numa só
linha, até o pescocinho mole e tino. " Botelho "Era um pobre-diabo
caminhando para os setenta anos, antipático, cabelo branco, curto
e duro como escova, barba e bigode do mesmo teor, muito macilento,
com uns óculos redondos que lhe aumentavam o tamanho de pupila
e davam-lhe à cara uma expressão de abutre, perfeitamente de acordo
com o seu nariz adunco e com a sua boca sem lábios: viam-lhe ainda
todos os dentes, mas, tão gastos, que pareciam limados até ao
meio ... foi lhe escapando tudo por entre as suas garras de ave
de rapina ". Você tem nestes trechos excelentes exemplos de descrição
realista e objetiva. A situação da mulher As mulheres são reduzidas
a três condições: primeira, de objeto, usadas e aviltadas pelo
homem: Bertoloza e Piedade; segunda, de objeto e sujeito, simultaneamente:
Rita Baiana; terceira, de sujeito, são as que se independem do
homem, prostituindo-se: Leonie e Pombinha. O desfecho do romance
Delatada por João Romão, os antigos donos de Bertoleza diligenciam
para capturar a escrava fugida. Procurada pelos policiais, a negra
se suicida. Observe o exagero da cena, e a ironia do desfecho.
"A negra, imóvel, cercada de escamas e tripas de peixe, com uma
das mãos espalmada no chão e com a outra segurando a faca de cozinha,
olhou aterrada para eles, sem pestanejar. Os policiais, vendo
que ela se não despachava, desembainharam os sabres. Bertoleza
então, erguendo-se com ímpeto de anta bravia, recuou de um salto,
e entes que alguém conseguisse alcançá-la, já de um só golpe certeiro
e fundo rasgara o ventre de lado a lodo. E depois emborcou para
a frente, rungindo e esfocinhando moribunda numa lameira de sangue.
João Romão fugira até o canto mais escuro do armazém, tapando
o rosto com os mãos. Nesse momento parava à porta da rua uma carruagem.
Era uma comissão de abolicionistas que vinha, de casaca, trazer-lhe
respeitosamente o diploma de sócio benemérito."
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