| O Guarani
José de Alencar
Resumo
Um índio descerá
de uma estrela colorida brilhante
de uma estrela que virá
numa velocidade estonteante
e pousará no coração do hemisfério sul da américa
num claro instante
depois de exterminada a última nação indígena
e o espírito dos pássaros
das fontes de água límpida
mais avançado que a mais avançada das mais avançadas
das tecnologias
virá
impávido que nem muhammad ali
virá que eu vi
apaixonadamente como peri
virá que eu vi
tranqüilo e infalível como bruce lee
virá que eu vi
o axé do afoxé filhos de ghandi
virá
Caetano Veloso
O Brasil não é um país de leitores. Nunca o foi. Poucos foram os momentos
em que a literatura conseguiu atingir, entre nós, um público mais amplo
do que um pequeno grupo intelectualizado e fechado. Mesmo os nossos mais
celebrados e consagrados escritores, como Gonçalves Dias, Machado de Assis
ou Carlos Drummond de Andrade, foram e continuam sendo lidos apenas por
uma pequena elite mais interessada e informada. A maior parte dos leitores
dos clássicos da nossa literatura parece estar reduzida, hoje, a colegiais
que apenas os lêem para cumprir uma enfadonha tarefa escolar. Lêem obrigados,
pela nota, e não pelo prazer da leitura.
Grandes criadores de ficção, como Machado de Assis ou José de Alencar,
transformam-se, assim, em verdadeiros monstros, ainda que sagrados. Viram
sinônimo de tortura, de chatice, de leitura imposta e cobrada. Um monstro
é sempre um monstro: assustador. Um ser sagrado não deve ser tocado, curtido,
lido. Deve ser reverenciado a distância, no altar ou na estante - intocado
e fechado.
Perde-se de vista que um Machado ou um Alencar, que sempre procuraram
deleitar e divertir os seus leitores, escreviam para serem consumidos,
não para serem reverenciados. Para que o leitor se aproxime de um clássico,
sem medo e sem reservas, é preciso que saiba que nem sempre foi um clássico.
Muitas vezes foi um livro revolucionário e polêmico. Alguns foram até
obras extremamente populares no seu tempo, como as peças de Shakespeare,
que chegou a ser acusado, por seus contemporâneos, de ser um escritor
apelativo e popularesco.
O Guarani é um clássico. Uma das obras mais importantes da literatura
brasileira. Mas que isso não assuste nem afaste o leitor. O Guarani foi,
antes de mais nada, um dos maiores sucessos de público da história da
nossa literatura. A maior parte dos jovens, que hoje tremem ao saber que
terão de ler O Guarani como dever escolar, talvez não se sentissem tão
ameaçados se soubessem que houve época em que milhares dos seus semelhantes
se reuniam nas repúblicas estudantis, por todo o Brasil, só para ouvir
a leitura emocionada das aventuras narradas por Alencar. Como hoje fazem
fila para assistir aos filmes de Steven Spielberg ou aguardam ansiosamente
o capítulo final de uma novela de televisão.
Entre janeiro e abril do ano de 1857, ocorreu um dos maiores fenômenos
literários da história do nosso país. Durante breves três meses, o Brasil
parece ter sido um país de leitores. Um jovem escritor cearense, aos 28
anos, prendeu a atenção emocionada de boa parte dos brasileiros. O desconhecido
José de Alencar publicava diariamente no folhetim do jornal Diário do
Rio de Janeiro, que fundara e dirigia, as aventuras arrebatadoras do primeiro
super-herói brasileiro, um índio chamado Peri.
Alfredo de Taunay, futuro Visconde e autor de Inocência, tinha 14 anos
quando O Guarani foi publicado. Muitos anos depois, ao escrever suas Reminiscências,
ainda guardava na memória a forte impressão que a leitura dos folhetins
causara em todo o Brasil. Deixemos que nos conte o que aconteceu: “...
ainda vivamente me recordo do entusiasmo que despertou, verdadeira novidade
emocional, desconhecida nesta cidade tão entregue às exclusivas preocupações
do comércio e da bolsa, entusiasmo particularmente acentuado nos círculos
femininos da sociedade e no seio da mocidade, então muito mais sujeita
ao simples influxo da literatura. ( ... )
O Rio de Janeiro em peso, para assim dizer, lia O Guarani e seguia comovido
e enlevado os amores tão puros e discretos de Ceci e Peri e com estremecida
simpatia acompanhava, no meio de perigos e ardis dos bugres selvagens,
a sorte vária e periclitante dos principais personagens do cativante romance
( ... ).
Quando a São Paulo chegava o correio, com muitos dias de intervalo,então
reuniam-se muitos estudantes numa república em que houvesse qualquer feliz
assinante do Diário do Rio para ouvir absortos e sacudidos de vez em quando
por elétrico frêmito, a leitura feita em voz alta por algum deles, que
tivesse órgão mais forte. E o jornal era depois disputado com impaciência
e, pelas ruas, se viam agrupamentos em torno dos fumegantes lampiões da
iluminação pública de outrora - ainda ouvintes a cercarem, ávidos de qualquer
improvisado leitor.” A publicação de romances em folhetins - os capítulos
aparecendo a cada dia nos jornais - já era comum no Brasil desde a década
de 1830. A maior parte destes folhetins era composta por traduções de
romances de origem inglesa, como as histórias medievais de Walter Scott,
ou francesa, como as aventuras dos Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas.
Emocionados, os brasileiros acompanhavam as distantes aventuras de um
Ivanhoé ou de um D’Artagnan, transportando-se, em espírito, para os campos
da Inglaterra medieval ou para a Paris do rei Luís.
Na década de 1840, começam a aparecer alguns folhetins de autores nacionais,
ambientados no Brasil. Teixeira e Sousa, considerado por muitos o nosso
primeiro romancista, estréia em 1843 com O Filho do Pescador. No ano seguinte,
o jovem estudante de medicina, Joaquim Manuel de Macedo, surge com A Moreninha,
o primeiro romance nacional “apreciável pela coerência e pela execução”.
Em meio à corrente açucarada dos nossos primeiros folhetinistas surge,
já em 1852, a obra excêntrica de um jornalista carioca de vinte e dois
anos chamado Manuel Antônio de Almeida. As suas Memórias de um Sargento
de Milícias retratam de forma irônica a vida do Rio de Janeiro “no tempo
do rei” Dom João VI e apresentam um contraponto cômico à seriedade por
vezes excessiva e à inverossimilhança dos romances do Dr. Macedinho.
Embora fizessem sucesso junto ao público, os nosso primeiros romances
não deixavam de ser considerados, pelos literatos “sérios”, como “uma
leitura agradável, diríamos quase um alimento de fácil digestão, proporcionado
a estômagos fracos.” O romance, esse gênero literário novo e “fácil”,
que foi introduzido na literatura brasileira por autores como Joaquim
Manuel de Macedo e Manuel Antônio de Almeida, estava ainda esperando o
seu primeiro grande momento de explosão entre nós quando José de Alencar
hipnotizou os leitores brasileiros com O Guarani.
José de Alencar nasceu em 1829, apenas sete anos depois da Independência
do Brasil, em Mecejana, no Ceará. Filho de um ex-padre, que se tornou
presidente da Província do Ceará e Senador do Império, o jovem Alencar
se transfere, com a família, aos nove anos de idade para a cidade do Rio
de Janeiro. Em 1844, aos quinze anos, matricula-se nos cursos preparatórios
à Faculdade de Direito de São Paulo. Lê, então, o recém publicado romance
A Moreninha, cujo sucesso em muito há de influenciá-lo na decisão posterior
de se tornar romancista.
Em São Paulo, Alencar cursa os primeiros anos da Faculdade de Direito
e começa a publicar seus primeiros textos em algumas revistas estudantis.
Transfere-se, 1848, para a Faculdade de Direito de Olinda, em Pernambuco.
Em Olinda, na velha biblioteca do Mosteiro de São Bento, encontra a literatura
dos antigos cronistas coloniais, como Gabriel Soares de Sousa e Pero Magalhães
Gandavo.
Anos mais tarde, Alencar ainda se recorda da emoção que foi a descoberta
desses autores do século XVI, que nos dão as primeiras impressões dos
europeus ao encontrarem a natureza e o índio do Brasil, em cujas páginas
já procurava um tema para desenvolver em sua própria literatura.
“Uma coisa vaga e indecisa,
que devia parecer-se com o primeiro broto do Guarani ou de Iracema, flutuava-me
na fantasia. Devorando as páginas dos alfarrábios de notícias coloniais,
buscava com sofreguidão um tema para o meu romance; ou pelo menos um protagonista,
uma cena e uma época.” Voltando a São Paulo, após contrair tuberculose,
forma-se em Direito no final de 1850. No ano seguinte, retorna à capital
do país e lá começa a advogar. Não se esquece, porém, da literatura. Em
1854, começa a escrever uma seção diária no Correio Mercantil, intitulada
Ao Correr da Pena, em que comenta os mais variados assuntos da vida do
Rio de Janeiro e do país. Esses textos leves de temática cotidiana podem
ser considerados os precursores da crônica moderna, em que se haveriam
de destacar, no século seguinte, escritores como Rubem Braga, Fernando
Sabino e Carlos Drummond de Andrade.
Em 1855, Alencar é um dos fundadores do jornal O Diário do Rio de Janeiro,
do qual é editor-chefe. É através desse jornal que vai publicar os textos
que, logo, o tornarão conhecido em todo o país. No final do ano de 1856,
Alencar decide publicar um folhetim como “brinde” aos leitores do jornal.
Inicia, assim, sua carreira de romancista. Publica o curto romance Cinco
Minutos, que é recebido por seus leitores com grande simpatia. Estimulado
pelo sucesso do primeiro, logo começa a publicar um segundo romance, A
Viuvinha, cuja publicação interrompe quando, por engano, um companheiro
seu publica o final da história na Revista de Domingo. Inicia, então,
a publicação de O Guarani.
Surge, assim, uma nova estrela, colorida e brilhante, na literatura nacional.
Uma estrela que há de escrever, “numa velocidade estonteante”, os capítulos
do romance do qual descerá um índio “mais avançado que a mais avançada
das mais avançada das tecnologias” - o apaixonado Peri.
Um pouco antes de escrever O Guarani, Alencar participou, sempre através
das páginas do Diário do Rio de Janeiro, de uma polêmica acalorada sobre
o papel do índio na literatura brasileira. O introdutor do romantismo
entre nós, o poeta Gonçalves de Magalhães, acabara de publicar um poema
épico com temática indianista. Amigo do imperador Dom Pedro II, Magalhães
era, de certa forma, o “poeta oficial” do Brasil naquele momento. Seu
poema A Confederação dos Tamoios fora lançado em luxuosa edição patrocinada
pelo imperador e recebido com reverência por um restrito, mas fiel círculo
de admiradores. Em uma série de cartas assinadas com o pseudônimo de Ig.,
Alencar critica o artificialismo do tratamento do índio dado por Magalhães
que, segundo ele, “não está à altura do assunto”. Saem em defesa do poeta
vários amigos seus, entre eles o próprio imperador Dom Pedro II. A polêmica
se desdobra do início de junho ao final de outubro de 1856. O autor de
O Guarani estivera pensando na questão do índio - e discutindo-a nos jornais
- durante boa parte do ano que antecedeu a sua primeira incursão pelo
terreno indianista.
Podemos mesmo perceber, em alguns pontos das cartas, que Alencar já pensava
em abordar a temática nos seus futuros escritos, associando-a ao elogio
da terra brasileira. “Digo-o por mim: se algum dia fosse poeta, e quisesse
cantar a minha terra e suas belezas, se quisesse compor um poema nacional,
pediria a Deus que me fizesse esquecer por um momento as minhas idéias
de homem civilizado. Filho da natureza, embrenhar-me-ia por essas matas
seculares; contemplaria as maravilhas de Deus, veria o sol erguer-se no
seu mar de ouro, a lua deslizar-se no azul do céu; ouviria o murmúrio
das ondas e o eco profundo e solene das florestas.” Desde as primeiras
páginas de O Guarani, fica claro que o seu autor procura colocar essas
idéias em prática ao seguir o curso do Paquequer.
Mas não seria através da poesia que Alencar haveria de “cantar a minha
terra e suas belezas”. Ainda na polêmica sobre A Confederação dos Tamoios,
o autor de Iracema critica o uso de gêneros poéticos clássicos para descrever
o índio brasileiro. “Escreveríamos um poema, mas não um poema épico; um
verdadeiro poema nacional, onde tudo fosse novo, desde o pensamento até
a forma, desde a imagem até o verso. A forma com que Homero cantou os
gregos não serve para cantar os índios; o verso que disse as desgraças
de Tróia e os combates mitológicos não pode exprimir as tristes endeixas
do Guanabara, e as tradições selvagens da América. Porventura não haverá
no caos incriado do pensamento humano uma nova forma de poesia, um novo
metro de verso?” Foi através de um gênero que engatinhava no Brasil, o
romance, que Alencar encontrou o melhor veículo para cantar o índio e
as belezas da sua terra. Mesclando o tratamento do índio com o exotismo
da Idade Média, idealizada por Walter Scott, e as aventuras dos heróis
de Alexandre Dumas, atingiu um público muito mais amplo do que os poetas
que o precederam na apresentação da figura do índio como símbolo da pureza
nacional. Basílio da Gama e mesmo Gonçalves Dias jamais foram tão populares.
Não foram fáceis os meses dedicados a escrever O Guarani. O leitor que
acompanhava embevecido as aventuras de Peri mal poderia supor o cotidiano
do escritor que o conduzia pelas matas bravias. Alguns anos depois, Alencar
revelaria as dificuldades do seu trabalho. “No meio das labutações do
jornalismo, oberado não somente com a redação de uma folha diária, mas
com a administração da empresa, desempenhei-me da tarefa que me impusera,
e cujo alcance eu não medira ao começar a publicação, apenas com os dois
primeiros capítulos escritos.” O leitor atento não deixará de perceber
que há realmente uma certa diferença entre os dois primeiros capítulos
e o restante do livro. Descritivos, lentos, chegam a desanimar o leitor
mais ávido por ação. Sutil, Alencar se desculpa ao final do segundo capítulo:
“Demorei-me em descrever a cena e falar de algumas da principais personagens
deste drama porque assim era preciso para que bem se compreendam os acontecimentos
que depois se passariam. Deixarei porém que os outros perfis se desenhem
por si mesmos.” É o que acontece. O resto do romance se desenvolve de
maneira muito mais veloz. A narrativa vai-se tornando cada vez mais ágil
à medida que as personagens vão entrando em ação. A rapidez desses capítulos
reflete o seu processo de criação. “Acordava por assim dizer na mesa de
trabalho, e escrevia o resto do capítulo começado no dia antecedente para
enviá-lo à tipografia. Depois do almoço entrava por novo capítulo, que
deixava em meio. Saía então para fazer algum exercício antes do jantar
no “Hotel de Europa”. A tarde, até nove ou dez horas da noite, passava
no escritório da redação, onde escrevia o artigo editorial e o mais que
era preciso.” A descrição em muito se assemelha ao trabalho dos escritores
das telenovelas de hoje. Assim como o fazem as redes de televisão, Alencar
ia colhendo opiniões entre o seu público para dar continuidade ao romance.
Mais de uma vez chegou a mudar o destino das personagens de acordo com
os palpites e as reclamações das suas primas e irmãs. Escrevia ouvindo
seus leitores. Sabia, portanto, muito bem o que o público queria. Aventura
e amor, ação e emoção. Em crônica de 1855, afirmara que um romance “é
uma história dividida em capítulos, que principia rindo e acaba chorando
, ou vice-versa; e na qual devem entrar necessariamente um namorado, uma
moça bonita, um homem mau, e diversas figuras de menos importância.” Foi
exatamente o que deu a seus leitores.
Romance histórico, antes de ser indianista, O Guarani apresenta figuras
que realmente existiram, como D. Antônio de Mariz e seu filho Diogo, transformados
por uma poderosa imaginação em verdadeiros cavaleiros medievais. A descrição
da fortaleza de D. Antônio mescla detalhes da arquitetura colonial brasileira
à imagem perfeita de um castelo medieval. A relação de D. Antônio com
os aventureiros que o servem é a de vassalagem feudal, com direito até
a juramento de eterna lealdade. As bandeiras são apresentadas seguindo
a imagem romantizada das cruzadas medievais. Ou seja, estamos no Brasil
de 1604 descrito como um espelho da Europa medieval.
Nesse ambiente romanticamente selvagem, ou selvaticamente romântico, surge
Cecília, a princesa loira, pura e ingênua. Para ela convergem três linhas,
três formas de amor. O amor “carnal” de Loredano, o amor “cortês” de Álvaro
e o amor “religioso” de Peri. Loredano, na verdade Frei Ângelo di Luca,
é o vilão da história, personifica todo o mal. Desertor da religião, ganancioso,
traidor, deseja Cecília sexualmente. Cavalheiro, nobre, Álvaro a ama respeitosamente,
como futura esposa, e lhe faz a corte com discrição. Termina por se envolver
com a mestiça Isabel, filha de D. Antônio com uma índia. Isabel acaba
se tornando uma das personagens mais complexas do romance, tanto no seu
amor por Álvaro, quanto no complexo de inferioridade e no preconceito
que carrega devido à mestiçagem.
Já Peri é o nosso grande herói. Capaz de saltar como uma onça, enfrentar
um poço cheio de cobras, arrancar uma palmeira com os braços, é muito
mais do que um índio. Nas palavras do seu criador, “é um ideal, que o
escritor intentou poetizar, despindo-o da crosta grosseira de que o envolveram
os cronistas, e arrancando-o ao ridículo que sobre ele projetam os restos
embrutecidos da quase extinta raça.” Falando sempre por metáforas tiradas
da natureza, Peri se apresenta como o índio que se dedica inteiramente
ao serviço de Cecília, que chama de Ceci - "dor", "sofrimento".
Passa a idolatrar sua “senhora” ao identificá-la com uma imagem de Nossa
Senhora, que o deslumbrara em meio a um incêndio. Por ela, abandona sua
tribo, sua língua e, por fim, até sua religião. Como se prisioneiro de
uma cantiga de amor medieval, vive uma eterna vassalagem amorosa, idolatrando
a sua senhora, vivendo a sua “ceci”, o equivalente indígena da “coyta”
medieval.
A grande imaginação transformadora de Alencar atua também sobre os textos
dos cronistas coloniais que tanto o fascinaram quando jovem, em Olinda.
Transcreve de maneira quase literal as descrições dos índios feitas por
um Gandavo ou um Soares de Sousa, mas vai acrescentando-lhes detalhes
dramáticos de grande efeito. O ritual antropofágico dos Aimorés segue
rigorosamente a descrição de Pero de Magalhães Gandavo, mas Alencar acrescenta
o brilho do auto-envenenamento de Peri. Para salvar sua senhora, o nosso
herói imagina ser devorado pelos Aimorés, que ingeririam também o veneno
que trazia em seu corpo.
O exagero imaginativo do romance foi reconhecido, anos depois, pelo próprio
Alencar. “N’O Guarani derrama-se o lirismo de uma imaginação moça, que
tem como a primeira rama o vício da exuberância; por toda a parte a linfa,
pobre de seiva, brota em flor ou folha.” Essa floresta farta de imaginação
é habitada por um índio que é a síntese de todas as raças. É impávido
como o negro de nome árabe Muhammad Ali. É tranqüilo e infalível como
o oriental de nome europeu Bruce Lee. É apaixonado como só ele poderia
ser: Peri.
É por essa floresta colorida, brilhante, que o leitor que começar a ler
O Guarani vai penetrar. Seguindo o Paquequer. Porque quer. Sem saber o
final. Só para ver onde vai dar. Como Cecília e Peri, destemido leitor,
“tu viverás”. Resumo 2 A obra de José de Alencar, como já se disse muitas
vezes, é tão variada em seus valores e intenções que o leitor menos avisado,
sem uma leitura global de seus textos, perde a orientação e não sabe por
onde começar o julgamento.
Nela há de tudo: desde o exercício mais ou menos etnográfico, onde a análise
psicológica se rarefaz e o personagem enquanto personagem quase desaparece
por entre o mapeamento lingüístico e antropológico (Ubirajara, l874),
até o propósito de análise social e psicológica, por onde o escritor antecipava
modos narrativos urbanos de grande fortuna em nossa literatura (Senhora,
1875).
Regionalista, histórico, social, psicológico são termos mais ou menos
arbitrários que não chegam a definir um romance, muito menos um romancista.
Este - para o leitor que pretenda uma compreensão menos esquemática -
fica sempre aquém ou além das designações dos manuais de História Literária
e só se esclarece sob uma lente menos rotulativa e mais fina: a que busque
o seu modo de relacionamento com a própria linguagem por meio da qual
chega à realidade. E sob uma lente assim, José de Alencar é muito mais
interessante do que, em geral, nos fizeram acreditar as fórmulas batidas
das esquematizações didáticas.
Na verdade, todo escritor é passível de reduções sumárias que, servindo
aos desígnios da classificação, têm por objetivo mais profundo preencher
o vazio de uma crítica parcial. Diz-se, por exemplo, que Machado de Assis
foi um grande escritor (grifando-se o termo), mas que teve uma imaginação
(esgarçando-se o termo) limitada pelos valores psicológicos, conhecendo
a alma humana com o rigor de um Dostoievsky, mas sofrendo de uma certa
miopia (a expressão foi usada por Eça de Queirós) para ver o grande espetáculo
da luta entre a natureza e o homem. E, como era de se esperar num espaço
crítico assim afeito ao vezo maniqueísta, o contrário daria José de Alencar.
Imaginoso, fantasista, empenhado na construção de uma literatura brasileira
americanista diferenciada da européia, mas escritor apressado, desajeitado
mesmo em lidar com personagens e situações. Será assim? Acredito que não
e, em seguida, veremos por quê.
Penso que foi Augusto Meyer quem, escrevendo sobre o presente livro (Nota
Preliminar a 0 Guarani, na edição Aguilar), pôs melhor o dedo no suspiro:
viu José de Alencar como escritor, escolhendo os seus temas, esforçando-se
por achar aquilo que é o objetivo de todo escritor de raça, isto é, a
sua linguagem, com a qual pudesse dar conta do tema que escolhesse. E,
num desabafo de leitor crítico, querendo desvencilhar-se da mesmice das
classificações, chega a afirmar: “Eu por mim confesso humildemente que
não vejo indígenas na obra de Alencar, nem personagens históricas, nem
romances históricos; vejo uma poderosa imaginação que transfigura tudo,
a tudo atribui um sentido fabuloso e não sabe criar senão dentro de um
clima de intemperança fantasista. Poeta do romance, romanceava tudo. Se
teve a intenção de criar o nosso romance histórico, ficou só na intenção,
e de qualquer modo não lograria fazê-lo, pois era demasiado genial para
poder adaptar o seu fogoso temperamento a um gênero tão medíocre, que
pede paciência aturada na imitação servil da crônica histórica, pouca
imaginação criadora e acúmulo de minudências pitorescas (...)". É,
de fato, esta a posição mais adequada para que o leitor de hoje, familiarizado
com as técnicas mais sofisticadas da narrativa, possa ler ainda José de
Alencar: captar, por sob as intenções regionalistas ou americanistas que
o romancista fazia vibrar na face de seus críticos mais mordazes, o esforço
de quem, no romance, encontrava um veículo adequado para a objetivação
de sua inquieta e poderosa capacidade fabuladora.
Poucos escritores brasileiros, mesmo aqueles mais bem dotados tecnicamente,
servem melhor ao estudo do que seja a própria arte da ficção, sobretudo
no que diz respeito ao problema tão antigo quanto o próprio Aristóteles,
o da verossimilhança. Em Alencar, a cada passo, em seus livros mais ambiciosos,
pode ir o leitor de hoje rastreando elementos que conduzem ao cerne daquilo
a que um crítico (Martin Price) chamou de "contrato ficcional”, isto
é, uma espécie de acordo tácito entre o autor e o leitor no que se refere
às experiências do imaginário concretizadas pela narrativa.
Tropeçando nos erros de sua ignorância etnográfica, esbarrando por entre
as armadilhas da selva selvaggia de uma terminologia "brasileira"
ainda não bastante esclarecida em sua época (e tudo isso os seus críticos
menos argutos e mais caturros, de ontem e de hoje, fizeram e fazem valer
como condenação geral de sua obra), Alencar foi afirmando a supremacia
de uma realidade ficcional sobre a chateza das minudências de ordem histórica
ou geográfica com o mesmo ardor e imprudência da maioria de seus personagens
heróicos.
Veja-se bem, no entanto: José de Alencar jamais perde a visão de conjunto
de sua narrativa. Se a ação de seus personagens faz surgir acontecimentos
que parecem bordejar o inverossímil, isto se dá por um momento fugaz,
e o leitor termina pacificado. Tudo acaba por explicar-se convenientemente,
desde que a imaginação funciona como elemento controlador e organizador.
Este processo de compensação, que está em toda a sua obra, começou a ganhar
foro de estilo (o "estilo José de Alencar'') a partir deste "romance
brasileiro", depois das tímidas experiências de romance urbano (a
que ele mesmo chamava de romancetes), representadas por Cinco minutos
(1856) e A viuvinha (1857).
Escrito em folhetins para o Diário do Rio de Janeiro entre janeiro e abril
de 1857, o romance, neste mesmo ano, era publicado em quatro fascículos
(as quatro partes que o compõem) "e que aproveitava a composição
dos folhetins", conforme indica Darcy Damasceno, na Introdução que
escreveu para a sua edição crítica da obra (Instituto Nacional do Livro,
1958) e que vou utilizando nesta minha leitura.
Que José de Alencar julgava ser este o seu primeiro romance é fácil de
verificar pelo Prólogo que antecedeu à publicação em folhetim. Ali, a
"prima", que aparecia como interlocutora nas duas primeiras
narrativas, é nomeada como responsável pela fé depositada no escritor:
"Gostou da minha história, e pede-me um romance; acha que posso fazer
alguma coisa neste ramo de literatura". Ao contrário do que acontecia
nas duas obras anteriores, entretanto, a “prima" conserva-se no pórtico
do romance, deixando de ser aquele expediente mais ou menos fácil com
que Alencar conduzia as intrigas superficiais em Cinco minutos e A viuvinha.
Deixada no Prólogo, transformada em depositária da obra, a mudança com
relação à “prima" é fato mais substancial: revela uma deslocação
de foco narrativo que, na verdade, inaugura o romance na obra literária
de José de Alencar.
De autor conivente ele passa a autor onisciente - assumindo a perspectiva
épica por meio da qual podia soltar as rédeas de sua imaginação, saturada
pelas leituras adolescentes de Chateaubriand, Dumas, Hugo, Sue, Scott,
Cooper, Marryat, autores todos citados por ele mesmo em Como e por que
sou romancista.
Na verdade, aquele leitor juvenil dos serões na chácara do pai, o Senador
Alencar, quando lia e relia para a sua mãe e amigas Armanda e 0scar, Saint-Clair
das Ilhas e Celestina, fazendo-as chegar até às lágrimas, encontrava agora,
antes de atingir os trinta anos, o modo de transformar todas aquelas experiências
em objeto capaz de aglutinar, pela ficção - aprofundando-as portanto -
as emoções e sensações do leitor sensível.
Não mais a história, em contraposição ao romance, a que ele se refere
no período de abertura de sua primeira obra ("É uma história curiosa
a que lhe vou contar, minha prima. Mas é uma história, e não um romance"):
agora tratava-se de, munido de umas escassas notas extraídas de crônicas
históricas e do que a fantasia, mais do que o registro verdadeiro, lhe
dizia dos sertões brasileiros, enfrentar a ambição que, segundo o próprio
romancista, alentava-o desde anos, quando escrevera Os Contrabandistas,
destruído pelo fogo (mais uma de suas ficções?!). E é curioso observar
como, pela leitura do Prólogo, é ainda o personagem, não o autor dos romancetes
anteriores, que envia à "prima" a cópia de um hipotético manuscrito
realizada por ele e Carlota (a jovem romântica do primeiro romancete,
como se sabe) "nos longos serões das nossas noites de inverno ",
como ali está dito. A ficção dentro da ficção, portanto, e não assumindo
ares de crônica verdadeira como nos livros iniciais, é que vinha estabelecer
a distinção entre história e romance por ele requerida.
Em sua curta, mas preciosa autobiografia, as origens do presente romance
estão mencionadas a partir de 1848, quando, voltando ao Nordeste, viajando
pelo interior do Ceará e Bahia, lendo cronistas da era colonial em Olinda,
José de Alencar afirma a certa altura de suas reminiscências: ''Uma coisa
vaga e indecisa, que devia parecer-me com o primeiro broto do Guarani
ou de Iracema, flutuava-me na fantasia. Devorando as páginas dos alfarrábios
de notícias coloniais, buscava com sofreguidão um tema para o meu romance;
ou pelo menos um protagonista, uma cena e uma época". O romance que
se vai ler em seguida é o testemunho desse achado, que o leitor deve apreender
sem desprezar o que permaneceu daquela fantasia flutuante mencionada pelo
escritor.
Organizado em torno de quatro partes (''Os aventureiros'' , ''Peri'' ,
"Os Aimorés" e "A catástrofe"), o romance possui aquilo
que, em 1848, Alencar buscava sofregamente: passa-se no século XVII, às
margens do Paraíba, e tem por protagonista o índio Peri.
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