O Guarani

José de Alencar

Resumo

Um índio descerá
de uma estrela colorida brilhante
de uma estrela que virá
numa velocidade estonteante
e pousará no coração do hemisfério sul da américa
num claro instante
depois de exterminada a última nação indígena
e o espírito dos pássaros
das fontes de água límpida
mais avançado que a mais avançada das mais avançadas
das tecnologias
virá
impávido que nem muhammad ali
virá que eu vi
apaixonadamente como peri
virá que eu vi
tranqüilo e infalível como bruce lee
virá que eu vi
o axé do afoxé filhos de ghandi
virá

Caetano Veloso

O Brasil não é um país de leitores. Nunca o foi. Poucos foram os momentos em que a literatura conseguiu atingir, entre nós, um público mais amplo do que um pequeno grupo intelectualizado e fechado. Mesmo os nossos mais celebrados e consagrados escritores, como Gonçalves Dias, Machado de Assis ou Carlos Drummond de Andrade, foram e continuam sendo lidos apenas por uma pequena elite mais interessada e informada. A maior parte dos leitores dos clássicos da nossa literatura parece estar reduzida, hoje, a colegiais que apenas os lêem para cumprir uma enfadonha tarefa escolar. Lêem obrigados, pela nota, e não pelo prazer da leitura.
Grandes criadores de ficção, como Machado de Assis ou José de Alencar, transformam-se, assim, em verdadeiros monstros, ainda que sagrados. Viram sinônimo de tortura, de chatice, de leitura imposta e cobrada. Um monstro é sempre um monstro: assustador. Um ser sagrado não deve ser tocado, curtido, lido. Deve ser reverenciado a distância, no altar ou na estante - intocado e fechado.
Perde-se de vista que um Machado ou um Alencar, que sempre procuraram deleitar e divertir os seus leitores, escreviam para serem consumidos, não para serem reverenciados. Para que o leitor se aproxime de um clássico, sem medo e sem reservas, é preciso que saiba que nem sempre foi um clássico. Muitas vezes foi um livro revolucionário e polêmico. Alguns foram até obras extremamente populares no seu tempo, como as peças de Shakespeare, que chegou a ser acusado, por seus contemporâneos, de ser um escritor apelativo e popularesco.
O Guarani é um clássico. Uma das obras mais importantes da literatura brasileira. Mas que isso não assuste nem afaste o leitor. O Guarani foi, antes de mais nada, um dos maiores sucessos de público da história da nossa literatura. A maior parte dos jovens, que hoje tremem ao saber que terão de ler O Guarani como dever escolar, talvez não se sentissem tão ameaçados se soubessem que houve época em que milhares dos seus semelhantes se reuniam nas repúblicas estudantis, por todo o Brasil, só para ouvir a leitura emocionada das aventuras narradas por Alencar. Como hoje fazem fila para assistir aos filmes de Steven Spielberg ou aguardam ansiosamente o capítulo final de uma novela de televisão.
Entre janeiro e abril do ano de 1857, ocorreu um dos maiores fenômenos literários da história do nosso país. Durante breves três meses, o Brasil parece ter sido um país de leitores. Um jovem escritor cearense, aos 28 anos, prendeu a atenção emocionada de boa parte dos brasileiros. O desconhecido José de Alencar publicava diariamente no folhetim do jornal Diário do Rio de Janeiro, que fundara e dirigia, as aventuras arrebatadoras do primeiro super-herói brasileiro, um índio chamado Peri.
Alfredo de Taunay, futuro Visconde e autor de Inocência, tinha 14 anos quando O Guarani foi publicado. Muitos anos depois, ao escrever suas Reminiscências, ainda guardava na memória a forte impressão que a leitura dos folhetins causara em todo o Brasil. Deixemos que nos conte o que aconteceu: “... ainda vivamente me recordo do entusiasmo que despertou, verdadeira novidade emocional, desconhecida nesta cidade tão entregue às exclusivas preocupações do comércio e da bolsa, entusiasmo particularmente acentuado nos círculos femininos da sociedade e no seio da mocidade, então muito mais sujeita ao simples influxo da literatura. ( ... )
O Rio de Janeiro em peso, para assim dizer, lia O Guarani e seguia comovido e enlevado os amores tão puros e discretos de Ceci e Peri e com estremecida simpatia acompanhava, no meio de perigos e ardis dos bugres selvagens, a sorte vária e periclitante dos principais personagens do cativante romance ( ... ).
Quando a São Paulo chegava o correio, com muitos dias de intervalo,então reuniam-se muitos estudantes numa república em que houvesse qualquer feliz assinante do Diário do Rio para ouvir absortos e sacudidos de vez em quando por elétrico frêmito, a leitura feita em voz alta por algum deles, que tivesse órgão mais forte. E o jornal era depois disputado com impaciência e, pelas ruas, se viam agrupamentos em torno dos fumegantes lampiões da iluminação pública de outrora - ainda ouvintes a cercarem, ávidos de qualquer improvisado leitor.” A publicação de romances em folhetins - os capítulos aparecendo a cada dia nos jornais - já era comum no Brasil desde a década de 1830. A maior parte destes folhetins era composta por traduções de romances de origem inglesa, como as histórias medievais de Walter Scott, ou francesa, como as aventuras dos Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas. Emocionados, os brasileiros acompanhavam as distantes aventuras de um Ivanhoé ou de um D’Artagnan, transportando-se, em espírito, para os campos da Inglaterra medieval ou para a Paris do rei Luís.
Na década de 1840, começam a aparecer alguns folhetins de autores nacionais, ambientados no Brasil. Teixeira e Sousa, considerado por muitos o nosso primeiro romancista, estréia em 1843 com O Filho do Pescador. No ano seguinte, o jovem estudante de medicina, Joaquim Manuel de Macedo, surge com A Moreninha, o primeiro romance nacional “apreciável pela coerência e pela execução”. Em meio à corrente açucarada dos nossos primeiros folhetinistas surge, já em 1852, a obra excêntrica de um jornalista carioca de vinte e dois anos chamado Manuel Antônio de Almeida. As suas Memórias de um Sargento de Milícias retratam de forma irônica a vida do Rio de Janeiro “no tempo do rei” Dom João VI e apresentam um contraponto cômico à seriedade por vezes excessiva e à inverossimilhança dos romances do Dr. Macedinho.
Embora fizessem sucesso junto ao público, os nosso primeiros romances não deixavam de ser considerados, pelos literatos “sérios”, como “uma leitura agradável, diríamos quase um alimento de fácil digestão, proporcionado a estômagos fracos.” O romance, esse gênero literário novo e “fácil”, que foi introduzido na literatura brasileira por autores como Joaquim Manuel de Macedo e Manuel Antônio de Almeida, estava ainda esperando o seu primeiro grande momento de explosão entre nós quando José de Alencar hipnotizou os leitores brasileiros com O Guarani.
José de Alencar nasceu em 1829, apenas sete anos depois da Independência do Brasil, em Mecejana, no Ceará. Filho de um ex-padre, que se tornou presidente da Província do Ceará e Senador do Império, o jovem Alencar se transfere, com a família, aos nove anos de idade para a cidade do Rio de Janeiro. Em 1844, aos quinze anos, matricula-se nos cursos preparatórios à Faculdade de Direito de São Paulo. Lê, então, o recém publicado romance A Moreninha, cujo sucesso em muito há de influenciá-lo na decisão posterior de se tornar romancista.
Em São Paulo, Alencar cursa os primeiros anos da Faculdade de Direito e começa a publicar seus primeiros textos em algumas revistas estudantis. Transfere-se, 1848, para a Faculdade de Direito de Olinda, em Pernambuco. Em Olinda, na velha biblioteca do Mosteiro de São Bento, encontra a literatura dos antigos cronistas coloniais, como Gabriel Soares de Sousa e Pero Magalhães Gandavo.
Anos mais tarde, Alencar ainda se recorda da emoção que foi a descoberta desses autores do século XVI, que nos dão as primeiras impressões dos europeus ao encontrarem a natureza e o índio do Brasil, em cujas páginas já procurava um tema para desenvolver em sua própria literatura.

“Uma coisa vaga e indecisa, que devia parecer-se com o primeiro broto do Guarani ou de Iracema, flutuava-me na fantasia. Devorando as páginas dos alfarrábios de notícias coloniais, buscava com sofreguidão um tema para o meu romance; ou pelo menos um protagonista, uma cena e uma época.” Voltando a São Paulo, após contrair tuberculose, forma-se em Direito no final de 1850. No ano seguinte, retorna à capital do país e lá começa a advogar. Não se esquece, porém, da literatura. Em 1854, começa a escrever uma seção diária no Correio Mercantil, intitulada Ao Correr da Pena, em que comenta os mais variados assuntos da vida do Rio de Janeiro e do país. Esses textos leves de temática cotidiana podem ser considerados os precursores da crônica moderna, em que se haveriam de destacar, no século seguinte, escritores como Rubem Braga, Fernando Sabino e Carlos Drummond de Andrade.
Em 1855, Alencar é um dos fundadores do jornal O Diário do Rio de Janeiro, do qual é editor-chefe. É através desse jornal que vai publicar os textos que, logo, o tornarão conhecido em todo o país. No final do ano de 1856, Alencar decide publicar um folhetim como “brinde” aos leitores do jornal. Inicia, assim, sua carreira de romancista. Publica o curto romance Cinco Minutos, que é recebido por seus leitores com grande simpatia. Estimulado pelo sucesso do primeiro, logo começa a publicar um segundo romance, A Viuvinha, cuja publicação interrompe quando, por engano, um companheiro seu publica o final da história na Revista de Domingo. Inicia, então, a publicação de O Guarani.
Surge, assim, uma nova estrela, colorida e brilhante, na literatura nacional. Uma estrela que há de escrever, “numa velocidade estonteante”, os capítulos do romance do qual descerá um índio “mais avançado que a mais avançada das mais avançada das tecnologias” - o apaixonado Peri.
Um pouco antes de escrever O Guarani, Alencar participou, sempre através das páginas do Diário do Rio de Janeiro, de uma polêmica acalorada sobre o papel do índio na literatura brasileira. O introdutor do romantismo entre nós, o poeta Gonçalves de Magalhães, acabara de publicar um poema épico com temática indianista. Amigo do imperador Dom Pedro II, Magalhães era, de certa forma, o “poeta oficial” do Brasil naquele momento. Seu poema A Confederação dos Tamoios fora lançado em luxuosa edição patrocinada pelo imperador e recebido com reverência por um restrito, mas fiel círculo de admiradores. Em uma série de cartas assinadas com o pseudônimo de Ig., Alencar critica o artificialismo do tratamento do índio dado por Magalhães que, segundo ele, “não está à altura do assunto”. Saem em defesa do poeta vários amigos seus, entre eles o próprio imperador Dom Pedro II. A polêmica se desdobra do início de junho ao final de outubro de 1856. O autor de O Guarani estivera pensando na questão do índio - e discutindo-a nos jornais - durante boa parte do ano que antecedeu a sua primeira incursão pelo terreno indianista.
Podemos mesmo perceber, em alguns pontos das cartas, que Alencar já pensava em abordar a temática nos seus futuros escritos, associando-a ao elogio da terra brasileira. “Digo-o por mim: se algum dia fosse poeta, e quisesse cantar a minha terra e suas belezas, se quisesse compor um poema nacional, pediria a Deus que me fizesse esquecer por um momento as minhas idéias de homem civilizado. Filho da natureza, embrenhar-me-ia por essas matas seculares; contemplaria as maravilhas de Deus, veria o sol erguer-se no seu mar de ouro, a lua deslizar-se no azul do céu; ouviria o murmúrio das ondas e o eco profundo e solene das florestas.” Desde as primeiras páginas de O Guarani, fica claro que o seu autor procura colocar essas idéias em prática ao seguir o curso do Paquequer.
Mas não seria através da poesia que Alencar haveria de “cantar a minha terra e suas belezas”. Ainda na polêmica sobre A Confederação dos Tamoios, o autor de Iracema critica o uso de gêneros poéticos clássicos para descrever o índio brasileiro. “Escreveríamos um poema, mas não um poema épico; um verdadeiro poema nacional, onde tudo fosse novo, desde o pensamento até a forma, desde a imagem até o verso. A forma com que Homero cantou os gregos não serve para cantar os índios; o verso que disse as desgraças de Tróia e os combates mitológicos não pode exprimir as tristes endeixas do Guanabara, e as tradições selvagens da América. Porventura não haverá no caos incriado do pensamento humano uma nova forma de poesia, um novo metro de verso?” Foi através de um gênero que engatinhava no Brasil, o romance, que Alencar encontrou o melhor veículo para cantar o índio e as belezas da sua terra. Mesclando o tratamento do índio com o exotismo da Idade Média, idealizada por Walter Scott, e as aventuras dos heróis de Alexandre Dumas, atingiu um público muito mais amplo do que os poetas que o precederam na apresentação da figura do índio como símbolo da pureza nacional. Basílio da Gama e mesmo Gonçalves Dias jamais foram tão populares.
Não foram fáceis os meses dedicados a escrever O Guarani. O leitor que acompanhava embevecido as aventuras de Peri mal poderia supor o cotidiano do escritor que o conduzia pelas matas bravias. Alguns anos depois, Alencar revelaria as dificuldades do seu trabalho. “No meio das labutações do jornalismo, oberado não somente com a redação de uma folha diária, mas com a administração da empresa, desempenhei-me da tarefa que me impusera, e cujo alcance eu não medira ao começar a publicação, apenas com os dois primeiros capítulos escritos.” O leitor atento não deixará de perceber que há realmente uma certa diferença entre os dois primeiros capítulos e o restante do livro. Descritivos, lentos, chegam a desanimar o leitor mais ávido por ação. Sutil, Alencar se desculpa ao final do segundo capítulo: “Demorei-me em descrever a cena e falar de algumas da principais personagens deste drama porque assim era preciso para que bem se compreendam os acontecimentos que depois se passariam. Deixarei porém que os outros perfis se desenhem por si mesmos.” É o que acontece. O resto do romance se desenvolve de maneira muito mais veloz. A narrativa vai-se tornando cada vez mais ágil à medida que as personagens vão entrando em ação. A rapidez desses capítulos reflete o seu processo de criação. “Acordava por assim dizer na mesa de trabalho, e escrevia o resto do capítulo começado no dia antecedente para enviá-lo à tipografia. Depois do almoço entrava por novo capítulo, que deixava em meio. Saía então para fazer algum exercício antes do jantar no “Hotel de Europa”. A tarde, até nove ou dez horas da noite, passava no escritório da redação, onde escrevia o artigo editorial e o mais que era preciso.” A descrição em muito se assemelha ao trabalho dos escritores das telenovelas de hoje. Assim como o fazem as redes de televisão, Alencar ia colhendo opiniões entre o seu público para dar continuidade ao romance. Mais de uma vez chegou a mudar o destino das personagens de acordo com os palpites e as reclamações das suas primas e irmãs. Escrevia ouvindo seus leitores. Sabia, portanto, muito bem o que o público queria. Aventura e amor, ação e emoção. Em crônica de 1855, afirmara que um romance “é uma história dividida em capítulos, que principia rindo e acaba chorando , ou vice-versa; e na qual devem entrar necessariamente um namorado, uma moça bonita, um homem mau, e diversas figuras de menos importância.” Foi exatamente o que deu a seus leitores.
Romance histórico, antes de ser indianista, O Guarani apresenta figuras que realmente existiram, como D. Antônio de Mariz e seu filho Diogo, transformados por uma poderosa imaginação em verdadeiros cavaleiros medievais. A descrição da fortaleza de D. Antônio mescla detalhes da arquitetura colonial brasileira à imagem perfeita de um castelo medieval. A relação de D. Antônio com os aventureiros que o servem é a de vassalagem feudal, com direito até a juramento de eterna lealdade. As bandeiras são apresentadas seguindo a imagem romantizada das cruzadas medievais. Ou seja, estamos no Brasil de 1604 descrito como um espelho da Europa medieval.
Nesse ambiente romanticamente selvagem, ou selvaticamente romântico, surge Cecília, a princesa loira, pura e ingênua. Para ela convergem três linhas, três formas de amor. O amor “carnal” de Loredano, o amor “cortês” de Álvaro e o amor “religioso” de Peri. Loredano, na verdade Frei Ângelo di Luca, é o vilão da história, personifica todo o mal. Desertor da religião, ganancioso, traidor, deseja Cecília sexualmente. Cavalheiro, nobre, Álvaro a ama respeitosamente, como futura esposa, e lhe faz a corte com discrição. Termina por se envolver com a mestiça Isabel, filha de D. Antônio com uma índia. Isabel acaba se tornando uma das personagens mais complexas do romance, tanto no seu amor por Álvaro, quanto no complexo de inferioridade e no preconceito que carrega devido à mestiçagem.
Já Peri é o nosso grande herói. Capaz de saltar como uma onça, enfrentar um poço cheio de cobras, arrancar uma palmeira com os braços, é muito mais do que um índio. Nas palavras do seu criador, “é um ideal, que o escritor intentou poetizar, despindo-o da crosta grosseira de que o envolveram os cronistas, e arrancando-o ao ridículo que sobre ele projetam os restos embrutecidos da quase extinta raça.” Falando sempre por metáforas tiradas da natureza, Peri se apresenta como o índio que se dedica inteiramente ao serviço de Cecília, que chama de Ceci - "dor", "sofrimento". Passa a idolatrar sua “senhora” ao identificá-la com uma imagem de Nossa Senhora, que o deslumbrara em meio a um incêndio. Por ela, abandona sua tribo, sua língua e, por fim, até sua religião. Como se prisioneiro de uma cantiga de amor medieval, vive uma eterna vassalagem amorosa, idolatrando a sua senhora, vivendo a sua “ceci”, o equivalente indígena da “coyta” medieval.
A grande imaginação transformadora de Alencar atua também sobre os textos dos cronistas coloniais que tanto o fascinaram quando jovem, em Olinda. Transcreve de maneira quase literal as descrições dos índios feitas por um Gandavo ou um Soares de Sousa, mas vai acrescentando-lhes detalhes dramáticos de grande efeito. O ritual antropofágico dos Aimorés segue rigorosamente a descrição de Pero de Magalhães Gandavo, mas Alencar acrescenta o brilho do auto-envenenamento de Peri. Para salvar sua senhora, o nosso herói imagina ser devorado pelos Aimorés, que ingeririam também o veneno que trazia em seu corpo.
O exagero imaginativo do romance foi reconhecido, anos depois, pelo próprio Alencar. “N’O Guarani derrama-se o lirismo de uma imaginação moça, que tem como a primeira rama o vício da exuberância; por toda a parte a linfa, pobre de seiva, brota em flor ou folha.” Essa floresta farta de imaginação é habitada por um índio que é a síntese de todas as raças. É impávido como o negro de nome árabe Muhammad Ali. É tranqüilo e infalível como o oriental de nome europeu Bruce Lee. É apaixonado como só ele poderia ser: Peri.
É por essa floresta colorida, brilhante, que o leitor que começar a ler O Guarani vai penetrar. Seguindo o Paquequer. Porque quer. Sem saber o final. Só para ver onde vai dar. Como Cecília e Peri, destemido leitor, “tu viverás”. Resumo 2 A obra de José de Alencar, como já se disse muitas vezes, é tão variada em seus valores e intenções que o leitor menos avisado, sem uma leitura global de seus textos, perde a orientação e não sabe por onde começar o julgamento.
Nela há de tudo: desde o exercício mais ou menos etnográfico, onde a análise psicológica se rarefaz e o personagem enquanto personagem quase desaparece por entre o mapeamento lingüístico e antropológico (Ubirajara, l874), até o propósito de análise social e psicológica, por onde o escritor antecipava modos narrativos urbanos de grande fortuna em nossa literatura (Senhora, 1875).
Regionalista, histórico, social, psicológico são termos mais ou menos arbitrários que não chegam a definir um romance, muito menos um romancista. Este - para o leitor que pretenda uma compreensão menos esquemática - fica sempre aquém ou além das designações dos manuais de História Literária e só se esclarece sob uma lente menos rotulativa e mais fina: a que busque o seu modo de relacionamento com a própria linguagem por meio da qual chega à realidade. E sob uma lente assim, José de Alencar é muito mais interessante do que, em geral, nos fizeram acreditar as fórmulas batidas das esquematizações didáticas.
Na verdade, todo escritor é passível de reduções sumárias que, servindo aos desígnios da classificação, têm por objetivo mais profundo preencher o vazio de uma crítica parcial. Diz-se, por exemplo, que Machado de Assis foi um grande escritor (grifando-se o termo), mas que teve uma imaginação (esgarçando-se o termo) limitada pelos valores psicológicos, conhecendo a alma humana com o rigor de um Dostoievsky, mas sofrendo de uma certa miopia (a expressão foi usada por Eça de Queirós) para ver o grande espetáculo da luta entre a natureza e o homem. E, como era de se esperar num espaço crítico assim afeito ao vezo maniqueísta, o contrário daria José de Alencar.
Imaginoso, fantasista, empenhado na construção de uma literatura brasileira americanista diferenciada da européia, mas escritor apressado, desajeitado mesmo em lidar com personagens e situações. Será assim? Acredito que não e, em seguida, veremos por quê.
Penso que foi Augusto Meyer quem, escrevendo sobre o presente livro (Nota Preliminar a 0 Guarani, na edição Aguilar), pôs melhor o dedo no suspiro: viu José de Alencar como escritor, escolhendo os seus temas, esforçando-se por achar aquilo que é o objetivo de todo escritor de raça, isto é, a sua linguagem, com a qual pudesse dar conta do tema que escolhesse. E, num desabafo de leitor crítico, querendo desvencilhar-se da mesmice das classificações, chega a afirmar: “Eu por mim confesso humildemente que não vejo indígenas na obra de Alencar, nem personagens históricas, nem romances históricos; vejo uma poderosa imaginação que transfigura tudo, a tudo atribui um sentido fabuloso e não sabe criar senão dentro de um clima de intemperança fantasista. Poeta do romance, romanceava tudo. Se teve a intenção de criar o nosso romance histórico, ficou só na intenção, e de qualquer modo não lograria fazê-lo, pois era demasiado genial para poder adaptar o seu fogoso temperamento a um gênero tão medíocre, que pede paciência aturada na imitação servil da crônica histórica, pouca imaginação criadora e acúmulo de minudências pitorescas (...)". É, de fato, esta a posição mais adequada para que o leitor de hoje, familiarizado com as técnicas mais sofisticadas da narrativa, possa ler ainda José de Alencar: captar, por sob as intenções regionalistas ou americanistas que o romancista fazia vibrar na face de seus críticos mais mordazes, o esforço de quem, no romance, encontrava um veículo adequado para a objetivação de sua inquieta e poderosa capacidade fabuladora.
Poucos escritores brasileiros, mesmo aqueles mais bem dotados tecnicamente, servem melhor ao estudo do que seja a própria arte da ficção, sobretudo no que diz respeito ao problema tão antigo quanto o próprio Aristóteles, o da verossimilhança. Em Alencar, a cada passo, em seus livros mais ambiciosos, pode ir o leitor de hoje rastreando elementos que conduzem ao cerne daquilo a que um crítico (Martin Price) chamou de "contrato ficcional”, isto é, uma espécie de acordo tácito entre o autor e o leitor no que se refere às experiências do imaginário concretizadas pela narrativa.
Tropeçando nos erros de sua ignorância etnográfica, esbarrando por entre as armadilhas da selva selvaggia de uma terminologia "brasileira" ainda não bastante esclarecida em sua época (e tudo isso os seus críticos menos argutos e mais caturros, de ontem e de hoje, fizeram e fazem valer como condenação geral de sua obra), Alencar foi afirmando a supremacia de uma realidade ficcional sobre a chateza das minudências de ordem histórica ou geográfica com o mesmo ardor e imprudência da maioria de seus personagens heróicos.
Veja-se bem, no entanto: José de Alencar jamais perde a visão de conjunto de sua narrativa. Se a ação de seus personagens faz surgir acontecimentos que parecem bordejar o inverossímil, isto se dá por um momento fugaz, e o leitor termina pacificado. Tudo acaba por explicar-se convenientemente, desde que a imaginação funciona como elemento controlador e organizador.
Este processo de compensação, que está em toda a sua obra, começou a ganhar foro de estilo (o "estilo José de Alencar'') a partir deste "romance brasileiro", depois das tímidas experiências de romance urbano (a que ele mesmo chamava de romancetes), representadas por Cinco minutos (1856) e A viuvinha (1857).
Escrito em folhetins para o Diário do Rio de Janeiro entre janeiro e abril de 1857, o romance, neste mesmo ano, era publicado em quatro fascículos (as quatro partes que o compõem) "e que aproveitava a composição dos folhetins", conforme indica Darcy Damasceno, na Introdução que escreveu para a sua edição crítica da obra (Instituto Nacional do Livro, 1958) e que vou utilizando nesta minha leitura.
Que José de Alencar julgava ser este o seu primeiro romance é fácil de verificar pelo Prólogo que antecedeu à publicação em folhetim. Ali, a "prima", que aparecia como interlocutora nas duas primeiras narrativas, é nomeada como responsável pela fé depositada no escritor: "Gostou da minha história, e pede-me um romance; acha que posso fazer alguma coisa neste ramo de literatura". Ao contrário do que acontecia nas duas obras anteriores, entretanto, a “prima" conserva-se no pórtico do romance, deixando de ser aquele expediente mais ou menos fácil com que Alencar conduzia as intrigas superficiais em Cinco minutos e A viuvinha.
Deixada no Prólogo, transformada em depositária da obra, a mudança com relação à “prima" é fato mais substancial: revela uma deslocação de foco narrativo que, na verdade, inaugura o romance na obra literária de José de Alencar.
De autor conivente ele passa a autor onisciente - assumindo a perspectiva épica por meio da qual podia soltar as rédeas de sua imaginação, saturada pelas leituras adolescentes de Chateaubriand, Dumas, Hugo, Sue, Scott, Cooper, Marryat, autores todos citados por ele mesmo em Como e por que sou romancista.
Na verdade, aquele leitor juvenil dos serões na chácara do pai, o Senador Alencar, quando lia e relia para a sua mãe e amigas Armanda e 0scar, Saint-Clair das Ilhas e Celestina, fazendo-as chegar até às lágrimas, encontrava agora, antes de atingir os trinta anos, o modo de transformar todas aquelas experiências em objeto capaz de aglutinar, pela ficção - aprofundando-as portanto - as emoções e sensações do leitor sensível.
Não mais a história, em contraposição ao romance, a que ele se refere no período de abertura de sua primeira obra ("É uma história curiosa a que lhe vou contar, minha prima. Mas é uma história, e não um romance"): agora tratava-se de, munido de umas escassas notas extraídas de crônicas históricas e do que a fantasia, mais do que o registro verdadeiro, lhe dizia dos sertões brasileiros, enfrentar a ambição que, segundo o próprio romancista, alentava-o desde anos, quando escrevera Os Contrabandistas, destruído pelo fogo (mais uma de suas ficções?!). E é curioso observar como, pela leitura do Prólogo, é ainda o personagem, não o autor dos romancetes anteriores, que envia à "prima" a cópia de um hipotético manuscrito realizada por ele e Carlota (a jovem romântica do primeiro romancete, como se sabe) "nos longos serões das nossas noites de inverno ", como ali está dito. A ficção dentro da ficção, portanto, e não assumindo ares de crônica verdadeira como nos livros iniciais, é que vinha estabelecer a distinção entre história e romance por ele requerida.
Em sua curta, mas preciosa autobiografia, as origens do presente romance estão mencionadas a partir de 1848, quando, voltando ao Nordeste, viajando pelo interior do Ceará e Bahia, lendo cronistas da era colonial em Olinda, José de Alencar afirma a certa altura de suas reminiscências: ''Uma coisa vaga e indecisa, que devia parecer-me com o primeiro broto do Guarani ou de Iracema, flutuava-me na fantasia. Devorando as páginas dos alfarrábios de notícias coloniais, buscava com sofreguidão um tema para o meu romance; ou pelo menos um protagonista, uma cena e uma época". O romance que se vai ler em seguida é o testemunho desse achado, que o leitor deve apreender sem desprezar o que permaneceu daquela fantasia flutuante mencionada pelo escritor.
Organizado em torno de quatro partes (''Os aventureiros'' , ''Peri'' , "Os Aimorés" e "A catástrofe"), o romance possui aquilo que, em 1848, Alencar buscava sofregamente: passa-se no século XVII, às margens do Paraíba, e tem por protagonista o índio Peri.
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