| O noviço
Martins Peno
Resumo
O noviço traz basicamente a história de Carlos, rapaz endiabrado, que
é enviado a um convento por decisão de sua tia e tutora. Não tendo vocação
para a vida religiosa, Carlos foge do convento e dedica-se a desmascarar
o ambicioso Ambrósio, segundo marido de sua tia. A seguir organiza-se
a seqüência de ações que desenvolvem a essência dessa narrativa. A peça
inicia-se com Ambrósio Nunes em uma sala ricamente decorada. Preparando-se
para ir à igreja com sua mulher Florência, o personagem afirma em tom
cínico que mudara sua vida de homem pobre em oito anos. Fora miserável,
mas valendo-se de determinação, perspicácia e destituído de qualquer escrúpulo
tornara-se rico, condição que lhe conferia poder e lhe garantia plena
impunidade. É interrompido por Florência que lhe apressa, dizendo que
é necessário chegar cedo para sentarem-se nos primeiros bancos e, assim,
poderem assistir confortavelmente à missa de Ramos. Ambrósio, com delicadeza
de fala e gestos, pergunta à esposa como anda o projeto de encaminhar
a enteada Emília para o convento e satisfaz-se com a notícia de que tudo
corre como ele desejaria. Com muita habilidade, Ambrósio enfatiza a idéia
de que a herança deixada pelo primeiro marido de Florência nunca o atraiu,
revela que sua paixão sempre foi espontânea e pura e, de certo modo, lhe
é até um tanto penoso administrar a fortuna do nobre falecido, no entanto,
cabe ao marido zelar pela esposa amada. Desse modo, toma para si a incumbência
de cuidar do dinheiro. Florência cede às propostas aparentemente sinceras
do marido e concorda em encaminhar não somente a filha para o claustro,
mas também incentivar seu filho Juca de nove anos para ser frade, acreditando
que dessa maneira estaria proporcionando aos dois uma vida virtuosa e
verdadeiramente feliz. Ambrósio, com a intenção deliberada de controlar
toda a situação familiar, mostra-se preocupado com a possibilidade de
Carlos, sobrinho tutelado de Florência, vir a se revoltar contra o noviciado
que lhe fora imposto há seis meses e causar aborrecimentos ao casal. Encerra-se
a conversa. Ambrósio retira-se para acabar de vestir-se. Florência está
a agradecer a Deus o marido que tem, quando Emília entra na sala. A mãe
aproveita o momento para expor à filha as vantagens que a vida de freira
proporciona, Emília chora e, contrariada, declara não ter inclinação para
o claustro. A mãe, insensível à dor da filha, abandona a sala e sobe ao
sótão para aprontar-se para a missa. Inesperadamente, Carlos, vestido
de frade, entra afobado e conta à Emília que havia fugido do convento,
após discussão que acabara com uma barrigada no Abade Mestre. Irado, manifesta
o desejo de ser militar, de envolver-se em lutas com espadas e não se
submeter a jejuns prolongados e a coros e rezas infindáveis. A moça, comovida,
ouve o relato dos martírios sofridos pelo noviço rebelde e lhe conta que
também ela deverá entrar para um convento. Carlos revolta-se, declara
o seu amor pela prima, acusa severamente Ambrósio de estar conspirando
contra todos. Promete que não descansará enquanto não vingar-se do velhaco
Ambrósio. Em meio a conversa, o garoto Juca, desajeitado em um hábito
de frade, corre para o colo de Carlos, que percebe claramente o plano
do marido da tia: filhos e enteados dedicados à vida religiosa seriam
obrigados a fazer votos de pobreza, o que garantiria a posse de todos
os bens por parte de Ambrósio. Emília e Juquinha saem da sala. Batem à
porta. Rosa entra na sala e com muita reverência dirige-se a Carlos, imaginando
ser ele um frade. Conta-lhe que está à procura de seu marido Ambrósio
Nunes, que há seis anos a abandonara em Maranguape, de posse de sua fortuna,
a pretexto de investimentos lucrativos em Montevidéu. Sem notícias, ela
chegou a pensar que ele tivesse morrido, mas uma pessoa informara-lhe
de que estava o fujão na corte, e estava ela ali, no momento, após longa
viagem e andanças pelo Rio de Janeiro. Carlos, aproveita-se do engano
da mulher e, fingindo ser bom capuchinho, investiga detalhes da história
e recebe, como prova da veracidade dos fatos relatados, uma cópia da certidão
de casamento de Rosa e Ambrósio. Promete ajudá-la e pede-lhe que aguarde
alguns momentos em um quarto da casa. Florência, o marido e a filha, prontos
para saírem, deparam-se com Carlos. Ambrósio cobra de Carlos obediência.
O moço ironicamente desafia o marido da tia por meio de frases ambíguas,
dando a entender que conhecia a história pregressa de Ambrósio. Este se
enfurece e passa a fazer-lhe exigências. Carlos o toma pelo braço, abre
a porta do quarto e mostra-lhe Rosa. O tio desorganiza-se, corre e arrasta
violentamente para fora da casa mulher e enteada. Carlos diverte-se com
a aflição do cínico tio e expõe à Rosa a atual condição de Ambrósio. A
mulher traída não resiste. Desmaia. Cria-se um alvoroço. Juquinha é chamado
a ajudar; apanha um galheteiro, Carlos a faz cheirar vinagre, azeite,
tentado-lhe restituir os sentidos. Em meio a intensa agitação, ouvem-se
meirinhos aproximarem-se. Dirigem-se eles a casa para efetuarem a prisão
do travesso noviço. Carlos faz a mulher acreditar que Ambrósio é poderoso
e que os oficiais batiam à porta para prendê-la. Propõe a ela que trocassem
vestimentas. Rosa vestiria seu hábito de religioso, e ele, suas vestes
de mulher. Desse modo, estaria ela a salvo da fúria dos meirinhos e ele
seria preso em seu lugar. Rosa ingenuamente aceita a proposta. Juca a
encaminha para um quarto. Carlos, travestido de mulher, recebe dissimuladamente
o Mestre de Noviços e os meirinhos. Faz-se passar por tia do noviço endiabrado,
aponta o esconderijo e orienta a maneira segura de surpreender e prender
o sobrinho. Os oficiais entram no quarto, capturam o falso noviço e o
levam para o convento. Carlos diverte-se imaginando a confusão que aconteceria
quando o Abade percebesse que uma mulher fora presa em seu lugar. Pede
a Juca que ficasse à janela e o avisasse da chegada do padrasto. Ambrósio,
perturbado, invade a sala. Havia deixado Florência e Emília na igreja.
A sua agitação é tamanha que se dirige a Carlos, pensando ser ele Rosa.
O sobrinho aproveita-se do engano e diverte-se, respondendo às perguntas
de Ambrósio como sendo sua primeira esposa. Chega inclusive a atirar-se
aos pés de Ambrósio em pranto exagerado. Nesse instante, o tratante Ambrósio
percebe o equívoco. Irrita-se com o descaramento do sobrinho, que imediatamente
lhe contém a fúria, mostrando a certidão que estava em seu poder. O tom
da cena inverte-se: Ambrósio humilha-se, implora a Carlos que nada revele
à Florência. Dono da situação, o rapaz faz exigências: abandonará o noviciado,
receberá a herança deixada pelo pai; Emília não será freira, e ele terá
o consentimento para casar-se com a prima. Ambrósio, de joelhos, aceita
as imposições e suplica piedade de Carlos. Subitamente, Florência e Emília
entram na sala e há novo equívoco: Florência acredita ter flagrado o marido
em traição. Sente-se desgraçada e num assombro se dá conta de que é o
sobrinho que subjuga Ambrósio. Pede explicações para aquela patifaria
e, cinicamente, Carlos afirma que estavam encenando uma comédia para o
sábado de Aleluia. A tia, atônita, ouve ainda o rapaz trapalhão declarar
o acordo que fizera com Ambrósio. Este vai interrompendo a fala de Carlos
com argumentos incontestáveis. Diz à mulher que fora um erro encaminhá-lo
ao convento, pois não se pode impedir que os jovens possam realizar o
amor tão genuíno que sentem. Carlos acrescenta que como prova de agradecimento
cederá metade de seus bens em favor do tio bondoso e lhe entrega a certidão
de casamento como se entregasse o termo de cessão de parte da fortuna.
Ambrósio rasga o papel, dissimulando total desinteresse pela doação. Florência
sente-se abençoada por ter casado com um homem tão honrado e chega a vangloriar-se
da própria capacidade de distinguir o amante sincero entre tantos pretendentes
que tivera logo após a viuvez. Elogia as qualidades do marido, que insiste
não ser merecedor de tanta reverência. Felizes, Emília e Carlos acertam
o casamento para dali a quinze dias. Nem bem confirmam o enlace matrimonial,
o Mestre dos Noviços surge para efetuar a prisão do noviço fujão. O religioso
declara enraivecido o constrangimento que passara diante do Abade ao cair
novamente em uma cilada de Carlos, quando levou ao convento uma mulher.
Diante das declarações do Mestre, Ambrósio perturba-se e tenta saber do
paradeiro da tal mulher. Florência desconfia das intenções do marido.
A confusão está armada: o Mestre arrasta o noviço para fora da casa; a
tia não consegue impedir a prisão do sobrinho, mesmo dizendo que Carlos
abandonaria a vida religiosa e que ela mesma diria isso ao Abade. O clima
na casa é de confusão. Ambrósio mostra-se atordoado, Florência pede explicações
para ter sido levada apressadamente para a igreja e ter sido lá deixada.
Ambrósio rapidamente dissimula a própria aflição. Tenta abraçar a esposa
que se revela arredia, exigindo que se esclareça a identidade da mulher
que fora presa em lugar do sobrinho. Acuado, Ambrósio inventa ser a tal
mulher uma antiga namorada, que não se conformara com o fato de ter ele
se casado. Confessa o erro cometido ao envolver-se na juventude com aquela
moça. Diz-lhe, no entanto, que a causa da separação fora o amor incontido
que sentiu desde o primeiro momento que viu Florência. O discurso amoroso
de Ambrósio é interrompido por Rosa, vestida de frade. Esta, entregando
a certidão a Ambrósio, interpõe-se ao casal, gritando que aquele homem
lhe pertencia. Ambrósio corre pela casa, tentando escapar. Nesse momento,
ouve-se a ordem de prisão ao bígamo. Enquanto isso se passa, Florência,
estarrecida, lê a certidão de casamento de Rosa Lemos e Ambrósio Nunes.
Muda-se o cenário. Florência, recolhida no quarto de Carlos, para evitar
contato com o ambiente em que vivera momentos felizes ao lado do marido
farsante, chora convulsivamente e é confortada pela filha. Está assim
prostrada há oito dias. Nada a anima, nem mesmo os remédios receitados
por um médico da família. Emília afirma ser necessário que a mãe reaja
e, desse modo, vingue-se de tanta traição. Florência diz que seu procurador
está encaminhando um mandado de prisão e que quer enviar uma carta ao
Abade, explicando-lhe os fatos e pedindo-lhe o favor de mandar um representante
do convento para que ela se justificasse pessoalmente pelos transtornos
causados. Decide, então, que o criado José fosse o portador da carta.
Nova surpresa: Carlos mais uma vez havia fugido do claustro. Apressado,
invade os fundos da casa, com o hábito roto e sujo, as mãos esfoladas,
joelhos machucados. Entra em seu antigo quarto. Ouve a voz do padre-mestre,
esconde-se embaixo da cama em que está deitada a tia. Emília acompanha
o padre até os aposentos onde está Florência, que acorda meio atordoada.
Estava ele incumbido novamente de efetuar a prisão do noviço indomável.
Florência e Emília surpreendem-se com a notícia de que Carlos tivesse
escapado novamente das grades do convento. Enquanto Florência expõe a
sua decisão de livrar Carlos do noviciado, Emília percebe a presença do
amado embaixo da cama. O padre-mestre retira-se da casa, aliviado por
não ter mais que se haver com as diabruras de Carlos. Florência lamenta-se
da tragédia que lhe acometera. Emília se mostra comovida e comporta-se
como se não soubesse o paradeiro do primo, mesmo este lhe puxando as saias
e fazendo-lhes cócegas nas pernas. Chega a casa Ambrósio, trajando-se
como um frade, seguindo o criado José até o quarto de Florência. Há novo
equívoco. Florência imagina ser o frade o representante que requisitara
ao Abade e passa a lhe contar a trama de que fora vítima. Ambrósio, não
suportando ouvir tantas acusações, denuncia-se, retirando o capuz, revelando,
assim, a sua real identidade. Revela à mulher que as portas da casa estão
trancadas e que ninguém poderá lhe socorrer os gritos. Impõe que lhe entregue
dinheiro e jóias, enfim, tudo que ela possuísse; caso contrário, só restaria
a alternativa de matá-la. Nesse momento, se esclarece mais um mal-entendido:
José, fiel a Ambrósio, não tinha enviado a carta ao Abade, na verdade,
tinha facilitado os planos de seu patrão. Florência corre aos gritos pela
casa, esconde-se em um canto coberta por uma colcha. Ambrósio, na correria,
encontra Carlos, puxa-lhe pelo hábito, pensando tratar-se das saias de
Florência. Carlos revida com uma bofetada. A tia permanece imóvel , coberta
por uma colcha. Em seguida, entram quatro homens armados e o vizinho Jorge
que vinha em socorro aos gritos que da rua se ouviam. Florência diz que
um ladrão travestido de frade tinha invadido a casa, mas já havia fugido.
Os homens vasculham a casa e acabam dando com Carlos, que aos berros,
sai debaixo da cama, e, tentando proteger-se das agressões, mete-se atrás
de um armário e o atira ao chão. O vizinho, ferido na perna, grita à Florência
que o ladrão se escondia no quarto e havia escapulido por uma porta. Emília
desvencilha-se do vizinho, agradece a ajuda e mando-o embora. Insiste
com a mãe que o frade era Carlos. A mãe retruca, afirmando que era o padrasto.
A tensão aumenta com a chegada de Rosa, que é recebida com certa amabilidade
por Florência. As duas conversam a sós. Lamentam-se da inocência com que
se entregaram ao vilão Ambrósio. Rosa apresenta à Florência a ordem de
prisão contra o bígamo e queixa-se ao saber que Ambrósio há instantes
escapara daquela casa. De modo inesperado, arrebenta-se uma tábua do armário
e Ambrósio, quase asfixiado, põe a cabeça de fora. Ambas mulheres atacam-no
aos socos e pauladas. O farsante, aos gritos, suplica compaixão às duas
esposas. Entra no quarto Carlos, preso por Jorge e os soldados. Florência
desfaz o engano, dizendo que era seu sobrinho o que tomavam por ladrão.
Ambrósio esconde-se novamente no armário. Rosa, acompanhada de oficiais
de justiça, entrega o mandado lavrado de prisão. O bígamo é retirado do
armário e recebe a sentença de prisão. O Mestre de Noviços retorna a casa
com a permissão de livrar Carlos do convento. Antes de retirar-se, o religioso
abençoa a futura união de Emília e Carlos. Ambrósio sai lamentando-se
da punição recebida.
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