| Primeiras estórias
Guimarães Rosa
Resumo
Dados
João Guimarães Rosa (Cordisburgo, 1908/Rio de Janeiro, 1967);
Gênero literário: Estória (conto breve);
Época Modernismo brasileiro (terceiro tempo);
Contexto histórico-cultural: Brasil - anos JK, o "presidende bossa-nova";
euforia desenvolvimentista; industrialização acelerada do país = Plano
de Metas = "50 anos em 5"; fundação de Brasília; instalação
da indústria automobilística; Concretismo = poesia verbivocovisual: Haroldo
de Campos, Augusto de Campos, Décio Pignatari, José Paulo Paes, Pedro
Xisto, José Lino Grunewald; Bossa nova: João Gilberto, Johnny Alf, Tom
Jobim, Vinicius de Moraes, Carlos Lyra, Ronaldo Bôscoli, Luis Bonfá, Sérgio
Ricardo, Juca Chaves, Jorge Ben (jor), Maysa, Agostinho dos Santos e alguns
mais;
Cinema novo: Nelson Pereira dos Santos, Roberto Santos, Joaquim Pedro
de Andrade, Gláuber Rocha;
Teatro: fim da geração TBC e início das gerações Arena e Oficina;
Futebol: seleção brasileira bicampeã do mundo (1958 e 1962);
juventude transviada: geração coca-cola; atuação permanente da UNE.
Mundo - vacina Sabin (pólio, 1955); Sputnik I (1957, URSS inicia a corrida
espacial); XX Congresso do PC da URSS (1958: a desestalinização); Revolução
Cubana (1958); Existencialismo: Jean-Paul Sartre; Novelle Vague: cinema
de Louis Malle, François Truffaut, Jean-Luc Godard; explosão do roxk-and-roll:
Elvis Presley, Bill Halley, Little Richard, Chuck Berry, Paul Anka.
Enredos I - "As margens da alegria". Um menino descobre a vida,
em ciclos alternados de alegria (viagem de avião, deslumbramento pela
flora, e fauna) e tristeza (morte do peru e derrubada de uma árvore).
II - "Famigerado". O jagunço Damázio Siqueira atormenta-se com
um problema vocabular: ouviu a palavra "famigerado" de um moço
do governo e vai procurar o farmacêutico, pessoa letrada do lugar, para
saber se tal termo era um insulto contra ele, jagunço.
III - "Sorôco, sua mãe, sua filha". Um trem aguarda a chegada
da mãe e da filha de Sorôco, para conduzí-las ao manicômio de Barbacena.
Durante o trajeto até a estação, levadas por Sorôco, elas começam surpreendentemente
a cantar. Quando o trem parte, Sorôco volta para casa cantando a mesma
canção, e os amigos da cidadezinha, solidariamente, cantam junto.
IV - "A menina e lá". Nhinhinha possuía dotes paranormais: seus
desejos, por mais estranhos que fossem, sempre se realizavam. Isolados
na roça, seus parentes guardam em segredo o fenômeno, para dele tirar
proveito. As reticentes falas da menina tinham caráter de premonição:
por exemplo, o pai reclamara da impiedosa seca. Nhinhinha "quis"
um arco-íris, que se fez no céu, depois de alentadora chuva. Quando ela
pede um caixãozinho cor-de-rosa com efeites brilhantes ninguém percebe
que o que ela queria era morrer...
V - "Os irmão Dagobé". O valentão Damastor Dagobé, depois de
muito ridicularizar Liojorge, é morto por ele. No arraial, todos dão como
certa a vingança dos outros Dagobé: Doricão, Dismundo e Derval. A expectativa
da revanche cresce quando Liojorge comunica a intenção de participar do
enterro de Damastor. Para surpresa de todos, os irmãos não só concordam,
como justificam a atitude de Liojorge, dizendo que Damastor teve o fim
que mereceu.
VI - "A terceira margem do rio". Um homem abandona família e
sociedade, para viver à deriva numa canoa, no meio de um grande rio. Com
o tempo, todos, menos o filho primogênito, desistem de apelar para o seu
retorno e se mudam do lugar. O filho, por vínculo de amor, esforça-se
para compreender o gesto paterno: por isso, ali permanece por muitos anos.
Já de cabelos brancos e tomado por intensa culpa, ele decide substituir
o pai na canoa e comunica-lhe sua decisão. Quando o pai faz menção de
se aproximar, o filho se apavora e foge, para viver o resto de seus dias
ruminando seu "falimento" e sua covardia.
VII - "Pirlimpsiquice". Um grupo de colegiais ensaia um drama
para apresentá-lo na festa do colégio. No dia da apresentação, há um imprevisto,
e um dos atores se vê obrigado a faltar. Como não havia mais possibilidade
de se adiar a apresentação, os adolescentes improvisam uma comédia, que
é entusiasticamente bem recebida pela platéia.
VIII - "Nenhum, nenhuma". Uma criança, não se sabe se em sonho
ou realidade, passa férias numa fazenda, em companhia de um casal de noivos,
de um homem triste e de uma velha velhíssima, de quem a noiva cuidava.
O casal interrompe o noivado, e o menino, que conhecera o Amor observando-os,
volta para a casa paterna. Lá chegando, explode sua fúria diante dos pais
ao notar que eles se suportavam, pois tinham transformado seu casamento
num desastre confortável.
IX - "Fatalidade". Zé Centeralfe procura o delegado de uma cidadezinha,
queixando-se de que Herculinão Socó vivia cantando sua esposa. A situação
tornara-se tão insuportável que o casal mudara de arraial. Não adiantou:
o Herculinão foi atrás. O delegado, misto de filósofo, justiceiro e poeta,
depois de ouvir pacientemente a queixa, procura o conquistador e, sem
a mínima hesitação, mata-o, justificando o fato como necessário, em nome
da paz e do bem-estar do universo.
X - "Seqüência". Uma vaca fugitiva retorna a sua fazenda de
origem. Decidido a resgatá-la, um vaqueiro persegue-a com incomum denodo.
Ao chegar à fazenda para onde a vaca retornara, o vaqueiro descobre que
havia outro motivo para sua determinação: a filha do fazendeiro, com quem
o rapaz se casa.
XI - "O espelho". Um sujeito se coloca diante de um espelho,
procurando reeducar seu olhar. apagando as imagens do seu rosto externo.
A progressão desses exercícios lhe permite, daí a algum tempo, conhecer
sua fisionomia mais pura, a que revela a imagem de sua essência.
XII - "Nada e a nossa condição". O fazendeiro Tio Man'Antônio,
com a morte da esposa e o casamento das filhas, sente-se envelhecido e
solitário. Decide vender o gado, distribuindo o dinheiro entre as filhas
e genros. A seguir, divide sua fazenda em lotes e os distribui entre os
empregados, estipulando em testamento uma condição que só deveria ser
revelada quando morresse. Quando o fato ocorre, os empregados colocam
seu corpo na mesa da sala da casa-grande e incendeiam a casa: a insólita
cerimônia de cremação era seu último desejo.
XIII - "O cavalo que bebia cerveja". Giovânio era um velho italiano
de hábitos excêntricos: comia caramujo e dava cerveja para cavalo. Isso
o tornara alvo da atenção do delegado e de funcionários do Consulado,
que convocam o empregado da chácara de "seo Giovânio", Reivalino,
para um interrogatório. Notando que o empregado ficava cada vez mais ressabiado
e curioso, o italiano resolve então abrir a sua casa para Reivalino e
para o delegado: dentro havia um cavalo branco empalhado. Passado um tempo,
outra surpresa: Giovânio leva Reivalino até a sala, onde o corpo de seu
irmão Josepe, desfigurado pela guerra, jazia no chão. Reivalino é incumbido
de enterrá-lo, conforme a tradição cristã. Com isso, afeiçoa-se cada vez
mais ao patrão, a ponto de ser nomeado seu herdeiro quando o italiano
morre.
XIV - "Um moço muito branco". Os habitantes de Serro Frio, numa
noite de novembro de 1872, têm a impressão de que um disco voador atravessou
o espaço, depois de um terremoto. Após esses eventos, aparece na fazenda
de Hilário Cordeiro um moço muito branco, portando roupas maltrapilhas.
Com seu ar angelical, impõe-se como um ser superior, capaz de prodígios:
os negócios de Hilário Cordeiro, o fazendeiro que o acolheu, têm uma guinada
espantosamente positiva. Depois de fatos igualmente miraculosos, o moço
desaparece do memo modo que chegara.
XV - "Luas-de-mel". Joaquim Norberto e Sa-Maria Andreza recebem
em sua fazenda um casal fugitivo, versão sertaneja de Romeu e Julieta.
Certos de que os capangas do pai da moça virão resgatá-la, todos se preparam
para um enfrentamento: a casa da fazenda transforma-se num castelo fortificado.
É nesse clima de tensão que se celebra o casamento dos jovens, a que se
segue a lua-de-mel, que acontece em dose dupla: dos noivos e do velho
casal de anfitriões, cujo amor fora reavivado com o fato. Na manhã seguinte,
a expectativa se esvazia com a chegada do irmão da donzela, que propõe
solução satisfatória para o caso. XVI - "Partida do audaz navegante".
Quatro crianças, três irmãs e um primo, brincam dentro de casa, aguardando
o término da chuva. A caçula, Brejeirinha, brinca com o que lhe dava mais
prazer: as palavras. Inventa uma estória do tipo Simbad, o marujo, que
ganha novos elementos quando todos vão brincar no quintal, à beira de
um riacho. Liberando sua fantasia, Brejeirinha transforma um excremento
de gado no "audaz navegante", colocando-o para navegar riacho
abaixo.
XVII - "A benfazeja". Mula-Marmela era mulher de Mumbungo, sujeito
perverso que se excitava com o sangue de suas vítimas. Esse vampiro tinha
um filho, Retrupé, cujo prazer só diferia do do pai quanto à faixa etária
das vítimas: preferia as mais frescas. Apesar de amar seu homem e ser
correspondida, Mula-Marmela não hesitara em matá-lo e depois cegar Retrupé,
de quem se torna guia. Passado algum tempo, resolve assassiná-lo: percebe
que esta seria a única maneira de refrear o instinto de lobisomem do rapaz.
XVIII - "Darandina". Um sujeito bem-vestido rouba uma caneta,
é surpreendido e, para escapar dos que o perseguem, escala uma palmeira.
Uma multidão acompanha atentamente os esforços das autoridades, que procuram
convencer o rapaz a descer. Resistindo, ele diz frases desconexas e tira
toda a roupa, revelando notável equilíbrio físico. A sessão de nudismo
leva um médico a nova tentativa de diálogo. Ao se aproximar, o médico
percebe que o sujeito voltara à normalidade e que, envergonhado, pedia
socorro. A multidão, sentindo-se ludibriada, não aceita essa sanidade
repentina e se dispõe a linchá-lo. Sentindo o risco, o sujeito berra um
grito de louvor à liberdade, motivo bastante para a multidão ovacioná-lo
e carregá-lo nos ombros.
XIX - "Substância". O fazendeiro Sionésio apaixona-se por sua
empregada Maria Exita, que fora abandonada pela família e criada pela
peneireira Nhatiaga. Na fazenda, o ofício de Maria Exita era o de quebrar
polvilho, trabalho duro mas que a moça realizava com prazer e competência.
Embora preocupado com a ascendência da moça, Sionésio sente que a paixão
é maior que o preconceito e pede-a em casamento.
XX - "Tarantão, meu patrão". O fazendeiro João-de-Barros-Dinis-Robertes
tem uma surpreendente explosão de vitalidade em sua velhice caduca. Como
se fora um Quixote, determina-se a matar seu médico: o Magrinho, seu sobrinho-neto.
Ao longo da viagem rumo à cidade, recruta um bando de desocupados, ciganos
e jagunços, que acatam sua liderança, pelo carisma natural do velho. Chegando
à "frente de batalha", Tarantão percebe que era dia de festa:
uma das filhas de Magrinho fazia aniversário. O susto inicial, provocado
pela invasão do "exército", transforma-se em alívio quando o
velho discursa, dizendo de seu apreço pela família e pelos novos amigos,
colecionados ao longo da última cavalgada.
XXI - "Os cimos". O menino da primeira estória revela agora
a face do sofrimento, causado pela doença da Mãe, fato que apressa sua
viagem de volta à casa paterna. Os últimos dias de férias são de preocupação.
O Menino só relaxava quando via, todas as manhãs e sempre à mesma hora,
um tucano se aproximar da casa dos rios, onde se hospedava. Num processo
de sublimação, desencadeado pela beleza da ave, o Menino ganha energia
para resistir e para transferir à Mãe uma carga de fluidos mentais positivos,
que lhe permitam superar a doença. Quando o Tio o procura para comunicar
a melhora da Mãe, o Menino experimenta momentos de êxtase, pois só ele
sabia do motivo da cura. Foco narrativoAs indicações feitas a seguir são
pontuadas com os algarismos que indicam a ordem de pubicação de cada estória
no livro. Assim, dez delas têm o foco relato centrado na terceira pessoa:
I-"As margens da alegria";
II-"Famigerado";
III-"Sorôco, sua mãe, sua filha";
IV-"A menina de lá";
V-"Os irmãos Dagobé";
VIII-"Nenhum, nenhuma";
X-"Seqüência";
XIV-"Um moço muito branco";
XIX-"Substância" e
XXI-"Os cismos". As onze estórias restantes são relatadas em
primeira pessoa:
VI-"A terceira margem do rio";
VII-"Pirlimpsiquice";
IX-"Fatalidade";
XI-"O espelho";
XII-"Nada e a nossa condição";
XIII-"O cavalo que bebia cerveja";
XV-"Luas de mel";
XVI-"Partida do audaz navegante";
XVII-"A benfazeja";
XVIII-"Darandina" e
XX-"Tarantão, meu patrão". Dessas onze estórias, apenas duas
apresentam o narrador como protagonista: "O espelho" e "Pirlimpsiquice";
nas outras, o relato é feito por um espectador privilegiado, que presencia
a ação e registra suas impressões a respeito do que assiste. O narrador
pode ser também um personagem secundário da estória, com laços de parentesco
ou e amizade com o protagonista. Quanto ao emprego dos tempos verbais,
nota-se que, na maior parte das estórias, o relato se faz através de uma
mistura do pretérito perfeito com o pretérito imperfeito do indicativo.
Espaço A maioria das estórias se passa em ambiente rural não especificado,
em sítios e fazendas; algumas têm como cenário pequenos lugarejos, arraiais
ou vilas. Os ambientes são apresentados com poucos mas precisos toques:
moldura de altos morros, vastos horizontes, grandes rios, pastos extensos,
escassas lavouras. Duas estórias, no entanto - "O espelho" e
"Darandina" -, transcorrem em cidades, pressupostas até como
grandes centros urbanos, pelo fato de mencionarem a existência de secretarias
de governo, hospício, corpo de bombeiros, jornalistas, parques de diversões,
prédios de repartições públicas e outros serviços tipicamente urbanos.
Personagens Embora variem muito quanto à faixa etária e experiência de
vida, as personagens se ligam por um aspecto comum: suas reações psicossociais
extrapolam o limite da normalidade. São crianças e adolescentes superdotados,
santos, bandidos, gurus sertanejos, vampiros e, principalmente, loucos:
sete estórias apresentam personagens com este traço.
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