| Quarup
Antônio Callado
Resumo
Resumo 1
"Cruzadas de amor, momentos de glória" Publicado
em 1967, é o mais famoso volume de Antônio Callado.
Guarda o clima de sua época e reconstrói a história
de Nando, padre de Pernambuco que nutre o sonho de reconstituir
as missões jesuíticas, mas não se anima a
sair de seu mosteiro. Conhece Francisca e o noivo Levindo, dois
jovens revolucionários, que participam das Ligas Camponesas.
Nando apaixona-se platonicamente por Francisca, mas é introduzido
na vida sexual pela inglesa Winifred. O padre, agora sem os medos
que o abalavam, parte rumo ao Xingu. De passagem pelo Rio, conhece
pessoas ligadas ao Serviço de Proteção aos
Índios. Ramiro é o chefe e apaixonado por Vanda,
a sobrinha, que é amante de Falua. Há ainda o bem-intencionado
Fontoura, que tenta preservar a cultura indígena destruída
pelos avanços da civilização. O grupo parte
para o Xingu, em época de conturbação política
causada pelo atentado a Lacerda e os últimos momentos do
governo de Getúlio Vargas, chefe político esperado
para a inauguração do Parque do Xingu. Enquanto
os índios preparavam a grande festa dos mortos, o quarup,
recebem a notícia do suicídio de Vargas. Passam-se
os anos, e os membros do grupo se reencontram no Xingu, menos
Sônia, que havia fugido com um belo índio. Junta-se
ao grupo Francisca, cujo noivo fora assassinado pela polícia.
Nando torna-se amante de Francisca, consumando-se a relação
amorosa anteriormente platônica. Partem todos em expedição
ao centro geográfico do Brasil, atingindo-o somente depois
de muitas privações. Nando renuncia ao sacerdócio
e passa a trabalhar com a alfabetização de camponeses,
cujo movimento ganha força no governo de Miguel Arraes.
Os principais momentos da política estão presentes,
desde a queda de Goulart até a instauração
da ditadura militar e a repressão aos militantes de esquerda.
Nando vai preso e, ao ser colocado em liberdade, sabe da partida
de Francisca para a Europa. Instala-se em uma casa de praia, empreendendo
uma nova cruzada, a cruzada do amor, difundindo aquilo que aprendera
com a antiga amante. Em um quarup, em homenagem ao aniversário
de morte de Levindo, é apanhado pela polícia e espancado
quase até a morte. Recebe socorro de alguns companheiros,
dentre eles Manuel Tropeiro, com quem decide partir para o sertão
e empreender uma nova jornada de luta. Nando está pronto
para encontrar o seu momento de glória.
Resumo 2
Edição nº 8 - 06/08/99 Quarup
Profa. Esther Rosado Antônio Callado, 1917-1997
"Nando já a cavalo mal ouvia Manuel Tropeiro. Sentia
que vinha vindo a grande visão. Sua deseducação
já estava completa. O ar da noite era um escuro éter.
A sela do cavalo um alto pico. Da sela Nando abrangia a Mata,
o Agreste e sentia na cara o sopro do fim da terra saindo das
furnas de rocha quente. E viu: aquele mundo todo com sua cana,
suas gentes e seus gados era Francisca molhando os pés
na praia e de cabelos ardendo no Sertão.
- Manuel — disse Nando — eu vou para ficar."
Pequena biografia: Nascido em Niterói no dia 26 de janeiro
de 1917, Callado era filho de uma professora e de um médico.
O pai foi poeta e jornalista. A mãe o incentivou a ler
e a escrever histórias. Embora cursasse Direito, concluindo
o curso em 1939, jamais exerceu a profissão de advogado.
Foi jornalista de sucesso, biógrafo, romancista e teatrólogo.
Em 1951, entrava para a literatura com a peça O fígado
de Prometeu . Em 1964, após o golpe militar, foi preso
e dividiu a mesma cela com Carlos Heitor Cony. Os militares achavam
Callado um grande perigo porque ele, como jornalista, sempre se
interessara por temas polêmicos: as ligas camponesas de
Pernambuco ou a demarcação das terras do Xingu,
prometida desde o governo de Getúlio Vargas. Libertado,
em 1968, servindo como correspondente do jornal O Globo, esteve
no Vietnã; experiência nasceu o livro Vietnã
do Norte. Em 1994 é eleito para a Academia Brasileira de
Letras e passa a ocupar a cadeira nº 8, que pertencera a
Austregésilo de Athayde. Morreu em janeiro de 1997. Obra:
Teatro: O Fígado de Prometeu ( 1951); A cidade assassinada
( 1954); Frankel ( 1955); Pedro Mico ( 1956); O colar de coral
( 1957); O tesouro de Chica da Silva ( 1959) Uma rede para Iemanjá
( 1961); O tesouro de Chica da Silva ( 1959); Forró no
Engenho Cananéia ( 1964); A revolta da cachaça (
1983). Romance: Assunção de Salviano ( 1954); A
madona de Cedro ( 1957); Quarup ( 1967); Bar Don Juan ( 1971);
Sempreviva ( 1981); A expedição Montaigne ( 1982);
Reflexos do Baile ( 1976); Concerto carioca ( 1985); Memórias
de Aldenham House ( 1989); O homem cordial ( 1994). Obras diversas:
Esqueleto na Lagoa Verde ( 1953); Retrato de Portinari ( 1956);
Os Industriais da Seca ( 1959); Tempo de Arraes ( reportagens,
1964); Vietnã do Norte ( 1977), Passaporte sem carimbo
( 1978). Onde encaixar Quarup? Numa visão tradicional e
cronológica, o romance e o autor devem ser encaixados na
Terceira Geração Modernista ( de 45 aos dias atuais).
Em vez de especulação ou intimismo, no entanto,
podemos considerar Quarup como "literatura engajada"e
de denúncia, tal como a de João Cabral de Melo Neto
em seu livro Morte e Vida Severina, também indicado pela
Unicamp. Quarup é antes de tudo uma denúncia, um
grito, um alerta. Ou uma bela lição de História
do Brasil. Sobre a obra: Callado não consta ( ainda!) da
maioria das antologias literárias para estudantes do segundo
grau e isso é incrível e imperdoável, em
se tratando de escritor fundalmentalmente importante na literatura
brasileira atual. Quarup ( 1967) é seu mais conhecido romance,
embora o autor sempre tenha declarado que sua preferência
pessoal era por Reflexos do Baile ( 1976). No entanto, a crítica
é unânime ao apontar Quarup como o mais exemplar
entre todos os romances produzidos pelo autor. Quarup virou filme,
em 1989, dirigido por Ruy Guerra, mas nem pode ser comparado ao
Quarup-livro, chance perdida pelo cineasta de fazer um grande
trabalho a que o romance e Callado faziam jus. Pena. Foco narrativo:
Quarup possui foco narrativo em terceira pessoa e seu narrador
é onisciente, uma vez que penetra o "lado de dentro
"de suas personagens, invadindo a intimidade de seus pensamentos,
revelando ao leitor o mundo interior de cada uma delas. "Nando
tinha cartas de Francisca à sua espera. Foi tirando dos
envelopes as cartas e segurou-as nas palmas abertas como se fossem
azulejos. Sua primeira idéia foi colecioná-las em
número suficiente para forrar as paredes da casa. Não
tanto pela escrita regular em tinta azul no papel branco: o que
contava era o cozimento da ternura esmaltando as folhas. ( ...
) "Foge para mim, Nando. Ficar aí é adiar a
vida da gente. Principalmente a minha. A nossa... Eles estão
facilitando o asilamento e fuga de todos os que estiveram presos.
Foge para mim, Nando, eu sei que para você eu valho uma
pátria, não valho? " Valia, valia todas as
pátrias, valia o risco de uma vida duvidosa na Europa,
da procura de sabe Deus que emprego. Tudo era preferível
a saber Francisca longe e a chamá-lo com insistência
e ignorar esse chamamento. Nando planejou embarcar de navio, mas
a Polícia recusou-lhe o passaporte. Estava amarrado ao
IPM do PC da Liga. Não podia deixar o país."
( A palavra, Parte V, p. 391) Observe que o texto acima assinala
também a presença do chamado discurso indireto livre,
que tem como pressuposto o narrador onisciente em 3ª pessoa
( o trecho está sublinhado). Nas narrativas onde aparece
o discurso indireto livre pode ser verificada uma aproximação
intensa entre o discurso do narrador e o fluxo do pensamento da
personagem. O romance está organizado estruturalmente em
7 partes, assim divididas sob a forma de 7 enormes capítulos:
1. O Ossuário;
2. O Éter;
3. A Maçã;
4. A orquídea;
5. A palavra;
6. A praia ; e
7. O mundo de Francisca.
Tempo: O tempo narrativo, que permeia os 7 capítulos,
é o cronológico e as ações acontecem
num período de dez anos: inicia-se no governo Getúlio
Vargas eleito pelo voto direto , na década de 50 e termina
em 1964, em pleno governo militar, logo após a deposição
de João Goulart e o início das torturas e perseguições
por parte da junta Militar presidida por Castelo Branco. Esses
dez anos são o cenário brutal de um tempo duro para
o Brasil, um tempo amargo, difícil , em que os homens,
quer das Ligas Camponesas, quer pós golpe militar, tiveram
que viver a carne viva de seus sonhos. Espaço: Os espaços
narrativos são Pernambuco, onde se inicia a ação,
Rio de Janeiro, para onde Nando se desloca em busca de ir para
o Xingu, e o Xingu esquecido das autoridade, sobretudo Getúlio
Vargas, que prometera demarcá-lo. As sete partes do romance:
1. O ossuário A personagem protagonista, padre Nando, é
apresentada ao leitor no ossuário, enquanto medita no Mosteiro
perto do Recife. Lá os frades franciscanos mortos esperam
pelo Juízo Final: "De costas para Nando e muito próximos
de Cristo, seis franciscanos imóveis, três de cada
lado, cabeças baixas cobertas do capuz. Enfrentavam a lei.
E para eles não havia misericórdia. Eram a cabeça
de duas filas de monges que aguardavam sua vez no juízo
final. Estavam todos imóveis, imóvel estava o Cristo
como se de súbito se introduzisse nos trabalhos uma alteração
importante. Começara um julgamento sem dúvida mais
grave. Era Nando que subia entre as duas filas de franciscanos.
Subia. Cresciam diante dos seus olhos a balança, a escala,
os cutelos, os duros pratos prontos a reagirem a um frêmito
de culpa. Enquadrado, dividido pelas linhas da balança,
Cristo crescente para nando caminhante. Cristo duro. Balança
ele próprio. Cristo matemata. Nando ultrapassou os que
eram julgados diante da balança, ultrapassou a balança,
colocou-se ao lado direito do Cristo e mirou em frente. Os capuzes
cobriam caveiras e na mão dos frades os rosários
se prendiam a metacarpos e falanges. Eram esqueletos de frades
em julgamento. Era atoda a imensa cripta em frente, prolongada
num corredor que morria em trevas, havia ossos empilhados e prontos
a se reorganizarem em esqueletos vestidos de burel mal soasse
para cada frade a trombeta da chamada.." Surpreende-se com
a presença de Levindo entre os esqueletos. Ferido na mão
por um tiro de rifle dado por um usineiro, o militante político
tinha vindo parar no ossuário procurando abrigo: "-
Cuidado, Levindo — disse Nando — Violência é
coisa que quem procura encontra sempre. · Graças
a Deus — disse Levindo. · O tiroteio foi por quê?
· Esse usineiro Zé Quincas, da Usina Estrela, é
o mais poderoso e o mais safado de todos eles. Se a gente conseguir
curvar essa peste os outros vão ver que a coisa não
é mais brincadeira. Eu fui lá com um camponeses
que entraram para o sindicato e foram despedidos. Voltei com eles,
que queriam desafiar Zé Quincas criando um caso como o
de hoje. Fui ajudar eles a fazerem casas nas terras da Usina.
Eles têm direitos adquiridos, que diabo. · Fazerem
casa na terra dos outros? · Toda terra em Pernambuco é
dos outros. Eu sabia e os camponeses sabiam que a Polícia,
que também é dos outros, acudia logo para desmanchar
as choupanas. Dito e feito." Francisca, noiva de Levindo
e moça da classe alta, estudante de pintura, tinha falado
na cripta com entusiasmo, estava pretendendo fazer lá uns
desenhos nos azulejos que retratavam a vida de Santa Teresa D'Ávila.
Nando medica Levindo, fazendo-lhe um curativo na mão. O
narrador antecipa o futuro narrativo nos faz ver que Nando já
conhecia Francisca ( "Desde que D. Anselmo lhe dera permissão
— mais do que isto, lhe ordenara _ que saísse do
Mosteiro, que fizesse relações com gente do mundo,
Nando só tinha encontrado uma paz séria e tranqüila
em Francisca, noiva de Levindo. O mais era desmembramento, o mundo
entrando em filetes de distração por todas as frinchas
da fortaleza que ele fora antigamente. A convivência com
seus amigos ingleses era, sem dúvida, estimulante mas agora
o levava quase ao desespero, de tanto que tirava de dentro de
si mesmo.") e nos aponta também o casal "de ingleses",
amigos de Nando: Winifred e Leslie, missionários na região.
Anglicanos, os dois mudariam também e para sempre o mundo
e os conceitos do jovem padre. No dia seguinte, Francisca aparece
no claustro ( ossuário): "- Já sei. Está
espantado de ver uma mulher no claustro. Francisca brandiu um
papel que tinha por baixo da tábua de desenho com o grande
pregador de metal de firmar as folhas. · D. Anselmo me
deu um salvo-conduto para desenhar os azulejos de Santa Teresa.
· Ah, muito bem — disse Nando — uma invasão
legalizada. · E pacífica. De mais a mais Teresa
de Ávila era uma mulher . Por que há de ficar seqüestrada
entre homens? Ou entre santos, se fosse o caso." É
assim que nossa narrativa se inicia. Nando é um jovem padre
que, com medo dos apelos do corpo físico, tenta adiar sua
ida ao Xingu, a fim de catequizar os índios. Teme os apelos
sexuais, a visão das índias nuas e evita dizer a
D. Anselmo que se dispõe a estar entre aqueles seres. Não
diz os motivos, mas adia a ida. Através de Levindo e Francisca,
por quem descobre estar apaixonado, através, ainda do casal
de missionários e da insistência de D. Anselmo para
que se aproxime do mundo "lá fora", Nando entra
em contato com o mundo exterior e seus inúmeros problemas:
o aparecimento das Ligas Camponesas, a violência dos donos
da terra e do poder, a miséria e até de um caso
de estupro seguido de gravidez e de aborto: Maria do Egito, uma
camponesa, é violentada pelo capataz da fazenda; o pai
avisa que se houver dentro dela a semente daquele homem, a matará,
bem como ao agressor. Grávida, Maria recebe a proteção
de Winifred e Lesley que a levam para abortar. Aos poucos, o padre
Nando se instala no mundo. E a fúria da carne e dos desejos
lhe sobrevém com força. Januário, um militante
político que pretende arrebanhar os padres a favor da causa
dos camponeses , convida Nando a participar de uma reunião
da Sociedade dos Plantadores. É a contragosto que Nando
vai, mas começa a descobrir o universo circundante, a força
dos homens simples e a simpatizar com a causa que defendem.
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